Malundo Kudiqueba
Por mais doloroso que seja admitir, o maior inimigo do Presidente João Lourenço não é a UNITA, nem os jornalistas incómodos, nem os activistas das redes sociais. O maior sabotador da sua presidência é ele próprio.
João Lourenço começou com a promessa de ser o homem da viragem, o purificador do sistema, o libertador das amarras deixadas por décadas de domínio dos Santos. E durante um breve momento, os angolanos quiseram acreditar. Mas passados estes anos, o desmoronar do seu prestígio é o reflexo directo das escolhas que fez, das pessoas com quem se rodeou e da ilusão em que decidiu viver.
O presidente vive num palácio cercado por bajuladores que repetem diariamente a ladainha: “Chefe, o senhor é o melhor presidente do mundo.” E ele acredita. Acredita mesmo. Confunde palmas com progresso, elogios com eficácia, e silêncio com aprovação. Fechou-se numa bolha de mentiras confortáveis, enquanto o país arde lentamente na miséria, no desemprego e na desesperança.
João Lourenço nomeou incompetentes em série, pessoas cujo único mérito é saberem proteger os seus interesses e negócios paralelos. Não gosta de gente inteligente à sua volta — porque a inteligência interroga, incomoda, contesta. Preferiu rodear-se de quem lhe garante estabilidade pessoal, mesmo que o país se afunde.
Pior: algumas figuras próximas usam-no como se tivessem ganho a lotaria. Carregam-no de elogios, e compram aplausos com fundos públicos. Garantem o seu pão com a bajulação e transformaram o Estado num balcão de favores. E ele, ao invés de romper com este ciclo, parece gostar. Acomodou-se. Tornou-se refém dos seus próprios cúmplices.
Como se tudo isso não bastasse, João Lourenço deixou escapar a frase que o definirá na história: “A fome é relativa.” Nenhuma frase traduz melhor o seu afastamento da realidade do povo. Um líder que relativiza a fome é um homem desconectado da terra que governa.
Prometeu combate à corrupção, mas foi selectivo. A justiça transformou-se num espectáculo, onde uns são punidos com câmaras de televisão e outros protegidos com silêncio cúmplice. A luta contra a corrupção morreu de incoerência.
O que sobra é um presidente isolado, vaidoso, convencido de que está a fazer um bom trabalho porque ninguém lhe diz o contrário — ou porque expulsou todos os que ousaram fazê-lo.
João Lourenço sabotou o seu próprio legado. Tinha tudo para ser um líder transformador e acabou como mais um gestor do caos, mais um mantenedor do sistema, mais um rosto novo para a velha máquina.
E a ironia é cruel: não foi a oposição que o destruiu. Foi o espelho. Foi a vaidade. Foi a ilusão de grandeza sem resultados.
O povo já percebeu. E a história também não perdoará.
Rotterdam, 02/08/2025.
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