João Lourenço no Parlamento Português

Aguiar branco e joão lourenço

O Presidente percorreu os corredores do poder legislativo luso, num gesto de cortesia que, à superfície, reafirma o estatuto de Angola como parceiro estratégico de Portugal. No entanto, a política não vive de cordialidades: vive de compromissos claros, debates transparentes e resultados tangíveis. E é aí que muitos encontros como este se tornam apenas actos cerimoniais, sem consequências reais para os povos que supostamente representam.

Do lado de fora, uma cena tocante: angolanos residentes em Portugal, muitos estudantes, saudaram euforicamente o seu Presidente. Esse entusiasmo é digno de registo, pois revela uma sede de pertença e esperança. Mas também é um espelho desconfortável. Porque muitos desses jovens são parte de uma diáspora que abandonou Angola em busca de oportunidades que o seu país ainda não conseguiu garantir. O aplauso, por vezes, esconde o grito.

O Parlamento português é símbolo de uma democracia consolidada, com os seus próprios desafios, sim, mas com regras do jogo relativamente claras. A visita de João Lourenço devia servir de inspiração para se repensar a arquitectura institucional angolana, onde o parlamento continua, muitas vezes, refém de uma maioria obediente e de um executivo omnipresente. Que diálogo pode haver entre instituições se, internamente, a Assembleia Nacional angolana é quase sempre palco de monólogos partidários?

É fundamental que a diplomacia entre Angola e Portugal deixe de ser feita apenas de palácios, discursos e jantares. Que se fale de cooperação efectiva no ensino, na investigação, na saúde, no reforço da cidadania. Que se aproveite o simbolismo para criar pontes de verdade e não apenas para alimentar a ilusão de um prestígio internacional que pouco diz ao cidadão comum.

João Lourenço foi aplaudido por angolanos em Lisboa. Que bom seria se, da próxima vez, fosse igualmente aplaudido por angolanos em Benguela, no Huambo, no Uíge — não por gestos simbólicos, mas por realizações concretas. Porque o verdadeiro patriotismo não se mede pelo volume do aplauso, mas pela qualidade de vida do povo.

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