Birmingham, 19 de junho 2025 – Malundo Kudiqueba
Em 1975, milhares de portugueses abandonaram Angola às pressas, de forma caótica e dolorosa. Chamaram-lhes retornados, mas poucos sentiram que tinham para onde voltar. Foi o êxodo de uma guerra colonial mal digerida, marcada por medo, incerteza e abandono. Hoje, quase 50 anos depois, se esses mesmos homens e mulheres — ou os seus filhos e netos — resolvessem voltar, o mais provável é que apanhassem o primeiro voo de regresso mal aterrassem em Luanda. O país mudou de dono, mas não de espírito. Colonialismo não saiu: apenas trocou de sotaque.
A geração dos retornados não fugiu só da independência. Fugiu do colapso do Estado, da insegurança, da fome, da nacionalização selvagem. Quase meio século depois, o país continua nas mãos de elites predadoras, e os cidadãos — mesmo os nativos — continuam a viver como exilados na sua própria terra.
Angola exporta petróleo, mas importa dignidade.
Produz milionários em tempo real e miseráveis em tempo integral.
Se os retornados voltassem hoje, não encontrariam uma Angola livre, justa e desenvolvida. Encontrariam um país rico debaixo de um povo pobre, onde a corrupção é o idioma oficial dos negócios e a justiça é cega… mas só para os que não têm amigos no poder.
Encontrariam universidades que produzem desempregados, hospitais onde o doente é a doença e escolas onde o professor é o aluno da fome.
Não é preciso ter saudades do passado para ter vergonha do presente.
Talvez ficassem uns dias. Tentassem visitar os bairros onde cresceram, os amigos de infância, os aromas antigos. Mas ao saírem do aeroporto veriam as crianças a pedir esmola, os jovens sem futuro, os velhos sem pensões, os políticos com carros de luxo e casas em Lisboa. Veriam a democracia como fachada, o Estado como espólio e o povo como ferramenta de propaganda.
Angola deixou de ser colónia de Portugal para ser refém de si própria.
A independência não é só política — é também moral, ética e social. E essa, Angola ainda não conquistou.
Se os retornados voltassem hoje, talvez perguntassem:
— Foi por isto que tudo aconteceu?
— Foi por esta Angola que se matou, que se exilou, que se lutou?
E a resposta, triste e brutal, seria: não.
Este post já foi lido 1183 vezes.
