Por Malundo Kudiqueba
Portugal está a viver uma contradição curiosa: nunca recebeu tantos brasileiros — e nunca tantos brasileiros se mostraram tão incomodados com a chegada de outros brasileiros. O discurso anti-imigração já não vem só da extrema-direita portuguesa. Vem, cada vez mais, da boca de quem chegou há pouco, com sotaque do outro lado do Atlântico, e que agora, num delírio de pertença, se vê mais europeu que os próprios portugueses.
Há uma esquizofrenia identitária a assombrar a maior comunidade estrangeira em Portugal. Os brasileiros são hoje mais de 400 mil, o maior grupo imigrante do país. Estão em todas as áreas — da restauração às universidades, dos salões de beleza às empresas de tecnologia. Há muito brasileiro a debochar outro brasileiro – “Já não cabe mais brasileiro em Portugal”, “Estão a estragar o nosso nome”, “Tão a vir só pra bagunçar”. O brasileiro que ontem era imigrante, hoje é polícia de fronteira com diploma de arrogância.
Muitos destes brasileiros, sobretudo os apoiantes de Jair Bolsonaro, chegaram à Europa cheios de moralismo, conservadorismo importado e um desejo absurdo de distinção e a validação dos portugueses da pior forma. Em Portugal, o bolsonarismo veste cachecol, toma vinho do Porto e acha que ser branco é profissão.
Curiosamente, os mesmos que reclamam da “favelização” dos bairros ou da “invasão” nas universidades são os que vieram pelos mesmos motivos: fugir da violência, do desemprego, da corrupção e da falta de esperança. Mas esqueceram rápido. O novo status europeu trouxe-lhes uma superioridade artificial. Sentem-se no direito de julgar os que vêm depois — como se a imigração fosse uma fila invisível onde eles chegaram primeiro e querem fechar a porta atrás de si.
Esta hipocrisia não é nova. É o velho complexo de vira-lata, disfarçado de patriotismo reacionário. Muitos destes brasileiros em Portugal votam na extrema-direita portuguesa, partilham discursos racistas, atacam minorias e ainda acreditam piamente que são bem-vindos apenas por falarem português — esquecendo que o preconceito também fala a mesma língua. O brasileiro bolsonarista em Lisboa acha que fugiu da “esquerda brasileira”, mas na verdade fugiu de si mesmo.
Por trás do discurso anti-brasileiro de muitos brasileiros está o ciúme, a competição, o desejo de exclusividade. Querem ser “os únicos da aldeia”. Não suportam ver outros brasileiros a vencer.
É preciso dizer com todas as letras: o problema não é o número de brasileiros em Portugal. O problema é o número de brasileiros que não se suportam uns aos outros. Que não conseguem olhar para um compatriota com empatia. Que acham que ser imigrante é um privilégio que se defende com muros invisíveis.
Portugal acolheu muitos. Mas também se tornou palco de uma guerra silenciosa entre irmãos. E se o país está a sentir essa tensão, é porque há um espelho sujo a ser apontado.
O pior inimigo do brasileiro em Portugal não é o português que odeia estrangeiros. É o próprio brasileiro. E MAIS NÃO DIGO!
Birmingham, 15 de junho de 2025.
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