Malundo Kudiqueba
O acto simbólico de condecorar, a título póstumo, os antigos Presidentes António Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos pelo Chefe de Estado João Lourenço é mais do que um gesto político: é um reconhecimento histórico. Em tempos em que a amnésia colectiva ameaça substituir a memória, prestar homenagem a quem marcou profundamente o curso de Angola é um acto de responsabilidade nacional.
Cada país tem os seus fundadores e os seus construtores. Agostinho Neto foi o líder da independência, o rosto da libertação nacional, e a voz que declarou ao mundo que “o mais importante é resolver os problemas do povo”. Sim, o seu tempo teve sombras e excessos, como todas as grandes revoluções, mas foi sob a sua liderança que o sonho de uma Angola livre se tornou realidade.
José Eduardo dos Santos herdou um país em guerra, mergulhado no caos, e foi sob a sua liderança que Angola conheceu a paz definitiva em 2002. Ao longo de quase quatro décadas, conduziu a nação por tempos difíceis, deixou marcas profundas no aparelho do Estado e criou as bases de muitas das infraestruturas e instituições que ainda hoje sustentam o país.
Ao condecorá-los com medalhas militares, o Estado angolano não fecha os olhos aos erros do passado, mas reconhece os feitos incontornáveis de dois líderes que, com as suas virtudes e limitações, moldaram a nação. Honrar esses nomes não é esquecer as feridas — é reconhecer que a história de um país é sempre feita de luz e sombra.
Num momento em que as democracias africanas procuram referências e estabilidade, é de louvar que Angola se reconcilie com o seu próprio passado, valorizando os que deram rosto à sua soberania e continuidade. A maturidade política também se mede pela capacidade de homenagear com equilíbrio e justiça, sem cair em revisionismos rancorosos ou silêncios oportunistas.
Este gesto é ainda mais relevante num país onde o culto do imediato tende a apagar o legado de quem veio antes. O futuro constrói-se com memória, não com amnésia.
Que estas condecorações inspirem uma nova geração de líderes a compreender que a grandeza não está apenas na glória do presente, mas no respeito pelas fundações que sustentam a República.
Porque uma nação que honra os seus é uma nação que se honra a si própria.
Birmingham, 10 de junho de 2025.
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