Malundo Kudiqueba
A UNITA atravessa um mau momento — não apenas em termos de posicionamento político, mas sobretudo enquanto projecto de oposição credível e coerente. Nos últimos tempos, tornou-se prática comum criticar João Lourenço por tudo — literalmente tudo. Se o Presidente ignora Adalberto Costa Júnior, é um escândalo. Se o convida, é manobra política. Se pretende condecorá-lo, é hipocrisia. Se devolve as ossadas de Jonas Savimbi, é aproveitamento político. Em que ficamos?
Esta duplicidade no discurso revela um problema mais profundo: a ausência de uma estratégia política séria e articulada por parte da UNITA. Uma oposição eficaz não pode viver de reflexos automáticos de negação, nem pode transformar qualquer gesto do adversário político num acto de má-fé. A crítica faz parte da democracia, sim, mas a crítica sem critério torna-se ruído — e, neste caso, um ruído que descredibiliza mais quem a faz do que quem a recebe.
A devolução das ossadas de Jonas Savimbi, por exemplo, deveria ter sido um momento de reconciliação histórica e nacional. Mas até esse gesto simbólico, com todo o seu peso emocional e político, foi alvo de ataques vindos de sectores da UNITA, que preferiram rotulá-lo como “aproveitamento político”. Como se a memória do seu próprio líder fundador devesse permanecer suspensa, refém de um rancor eterno.
Há um velho ditado que diz: “Quem não sabe o que quer, não aproveita o que tem.” E a UNITA, neste momento, parece não saber o que quer. Quer respeito, mas despreza os gestos de reconhecimento. Quer ser incluída, mas recusa os sinais de aproximação. Quer liderar, mas comporta-se como quem apenas reage. A política, tal como a vida, não perdoa quem está sempre à espera do erro do outro para sobreviver.
Pior ainda é o impacto deste comportamento nos seus próprios apoiantes. Como se pode mobilizar uma base política se o partido oscila entre o ressentimento e a incoerência? Que mensagem passa Adalberto Costa Júnior quando permite — ou, pelo silêncio, consente — que os seus correligionários ataquem qualquer tentativa de diálogo, de aproximação ou até de simbolismo político que envolva o seu nome?
A UNITA precisa urgentemente de repensar a sua postura. Precisa de deixar de ser apenas um partido de protesto e começar a comportar-se como uma alternativa de governo. Isso exige maturidade política, clareza estratégica e uma boa dose de humildade. Porque quem quer governar um país tem de saber dialogar com todos — inclusive com o adversário.
Em vez de criticar tudo, a UNITA deveria escolher bem as suas batalhas. E sobretudo, deveria definir uma linha política clara. Porque, neste momento, o maior favor que faz ao MPLA é mostrar-se como um partido mais preocupado com a espuma da polémica do que com a substância das propostas. E isso, sim, é uma verdadeira tragédia para a democracia angolana.
Birmingham, 07 de junho de 2025.
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