Malundo Kudiqueba
“Quem não consegue fazer nada de positivo na sua terra natal, Calulo, não tem condições para liderar um país como Angola.” A insinuação é clara e directamente apontada a Higino Carneiro, natural do município de Calulo, na província do Cuanza Sul. Para Maria Luísa Abrantes, a ausência de um legado concreto na sua terra de origem coloca em causa a sua capacidade para governar um Estado com as complexidades e exigências de Angola.
A pré-candidatura de Higino Carneiro à liderança do MPLA — e, por consequência, à Presidência da República em 2027 — continua a gerar reações no seio da sociedade angolana. Desta vez, foi a economista Maria Luísa Abrantes, conhecida pela sua postura crítica e frontal, quem se pronunciou publicamente, deixando claro que não se revê na ambição presidencial do antigo governante.
Em declarações recentes, numa entrevista concedida a Victor Hugo Mendes, Maria Luísa Abrantes foi categórica ao afirmar que Higino Carneiro “nada fez de relevante” ao longo dos anos em que exerceu cargos de destaque no Governo e no MPLA.
As palavras da economista, conhecida popularmente por “Milucha”, não são isoladas. Representam o sentimento de muitos angolanos que olham para figuras históricas do regime com desconfiança e cansaço. A ideia de uma eventual presidência de Higino Carneiro levanta dúvidas sobre o compromisso real com a renovação do MPLA e com uma Angola mais transparente, justa e progressista.
Higino Carneiro foi, ao longo das últimas décadas, uma das figuras mais visíveis do aparelho do Estado, ocupando pastas como as Obras Públicas, Governador de Luanda e do Cuando Cubango, entre outras. No entanto, o seu legado é contestado, tanto por alegadas práticas de má gestão como por um estilo de governação que muitos consideram distante das necessidades reais da população.
Ao mencionar Calulo, sua terra natal, Maria Luísa Abrantes evoca um símbolo maior: se um político não conseguiu transformar a realidade da sua própria terra, como poderá liderar um país inteiro? Essa pergunta, feita em tom de desabafo, ressoa entre muitos que esperavam ver, ao longo dos anos, políticas de desenvolvimento mais concretas e menos centradas no discurso.
Calulo continua a enfrentar desafios básicos — infraestruturas precárias, falta de oportunidades para os jovens, ausência de serviços públicos de qualidade —, problemas que muitos associam à falta de vontade política e à prioridade dada aos interesses pessoais em detrimento do bem comum.
A recusa pública de Maria Luísa Abrantes em apoiar a candidatura de Higino Carneiro é significativa, não apenas por ser mulher, crítica e ex-deputada, mas porque também representa uma ala da sociedade civil que se mostra cada vez mais impaciente com os rostos de sempre.
Se o MPLA deseja mesmo renovar-se e reconquistar a confiança popular, terá de ouvir estas vozes e perceber que não basta reciclar nomes — é preciso oferecer verdadeiras alternativas.
A política angolana está em ebulição, e os próximos meses prometem ser marcados por mais confrontos de ideias, posicionamentos estratégicos e, acima de tudo, por um povo cada vez mais atento e exigente.
Birmingham, 06 de junho de 2025.
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