Fonte: Exclusivo Fama & Poder.
Pela primeira vez desde a independência, Angola prepara-se para assistir a um gesto simbólico de rara carga histórica: o Presidente João Lourenço irá homenagear, numa cerimónia solene prevista para novembro, os três grandes fundadores dos movimentos de libertação nacional — Agostinho Neto, Jonas Savimbi e Holden Roberto.
A cerimónia, com “pompa e circunstância”, como foi descrita por fontes próximas do Palácio Presidencial, será exclusivamente dedicada aos três líderes, cada um representando as principais forças que marcaram o processo de luta contra o colonialismo: o MPLA, a UNITA e a FNLA. A data exacta ainda não foi anunciada, mas tudo indica que poderá ocorrer no contexto das comemorações do 11 de Novembro, data da independência do país.
Um gesto de reconciliação ou reposicionamento político?
Este acto reveste-se de uma enorme carga simbólica. Angola, durante décadas, foi prisioneira das narrativas exclusivistas. A versão oficial da história consagrou Agostinho Neto como herói maior da independência, relegando Holden Roberto e Jonas Savimbi para o esquecimento ou para o papel de vilões do pós-independência.
Homenageá-los agora, no mesmo plano cerimonial, não é apenas uma reinterpretação da história — é uma tentativa de reescrevê-la com mais justiça e equilíbrio. É o reconhecimento de que a luta pela independência teve várias frentes, múltiplas vozes e sacrifícios feitos por diferentes angolanos, de diferentes regiões e sensibilidades políticas.
Mas também há quem veja nesta iniciativa um gesto claramente calculado. A popularidade do MPLA tem vindo a decair, e João Lourenço precisa de reconstruir pontes com sectores da sociedade tradicionalmente hostis ao partido, sobretudo os simpatizantes da UNITA e da FNLA.
A importância do reconhecimento plural
Seja qual for a motivação, o gesto é importante. Angola precisa urgentemente de curar as suas feridas históricas, muitas ainda abertas, outras mal cicatrizadas. O país nunca fez um verdadeiro exercício de reconciliação nacional — apenas silenciou as dores, escondeu os cadáveres do passado e seguiu em frente com uma história oficial muitas vezes unilateral.
Reconhecer a contribuição de Holden Roberto e Jonas Savimbi ao lado de Agostinho Neto é uma forma de dizer que a pátria é maior do que qualquer partido. Que a história não pode continuar refém da ideologia dominante. E que os erros do passado, de todos os lados, não apagam o valor dos que lutaram contra o colonialismo com coragem e convicção.
E o futuro?
Esta cerimónia pode ser apenas simbólica, mas os símbolos também constroem nações. Se for o início de uma nova abordagem da história angolana — mais inclusiva, plural e corajosa — então estaremos perante um verdadeiro acto de estadista. Mas se for apenas uma manobra de marketing político, diluir-se-á rapidamente no cinismo colectivo.
A Angola de 2027, que se avizinha com eleições, novos protagonistas e desafios sociais complexos, precisa de mais do que homenagens: precisa de memória, justiça e verdade. Mas reconhecer todos os seus filhos que deram a vida pela liberdade pode ser um bom começo.
Fonte: Fama & Poder.
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