Malundo Kudiqueba
Não existe nenhum estudo científico, sociológico ou económico que relacione o consumo de funge com o subdesenvolvimento. Culpabilizar o funge é uma forma barata e preconceituosa de mascarar a incompetência institucionalizada e generalizada do nosso país. Há dias em que o silêncio é sinal de prudência. Mas há outros em que o silêncio diante da estupidez é cumplicidade. Esta semana, uma “intelectual” angolana resolveu brindar o país com uma das ideias mais ridículas e ofensivas dos últimos anos: Angola está atrasada porque comemos funge.
Segundo a senhora, o povo angolano só começará a evoluir se trocar o funge por salada, sopa e, quem sabe, umas torradas integrais com abacate. Por outras palavras: basta mudarmos o menu para nos tornarmos desenvolvidos e quem sabe civilizados. Esta ideia, dita com tom sério e vestida de pretensa autoridade académica, é um insulto à inteligência nacional. Reduzir esse alimento a um símbolo de atraso é cuspir no prato que alimentou gerações.
Alguns intelectuais angolanos são, de facto, uma vergonha — não pela sua ignorância, mas pela arrogância intelectual. O problema maior não é ter opiniões. É usar a posição de “intelectual” para espalhar preconceitos como se fossem teses. A senhora em questão não apresentou dados, fontes ou raciocínios minimamente estruturados. Limitou-se a dar um palpite embalado numa crítica social ruidosa.
Funge não atrasa ninguém. Ignorância, sim.
- “Intelectual que culpa o funge pelo atraso de Angola devia ir fazer o doutoramento no reino da desinformação.”
- “O problema de Angola não está no prato, está na mentalidade como da senhora em questão.”
- “Um povo que se alimenta de argumentos vazios morre de fome de verdade.”
- O problema não é o funge — é a falta de fermento nas ideias.”
- “Não se constrói um país com argumentos sem proteína intelectual.”
Não há nenhum estudo científico que comprove que comer funge causa sono de forma anormal. É um alimento rico em hidratos de carbono, como qualquer outro alimento básico no mundo. A sonolência depois de comer não é provocada pelo funge, mas pela digestão natural. Se formos seguir essa lógica, então os italianos, depois de comerem massa, também não deveriam produzir nada. Nem os franceses, com os seus queijos e vinhos ao almoço. Que tal a batata e o feijão no brasil também é pesado.
O facto de algumas pessoas dormirem depois de comer funge não significa que o funge seja o culpado pelo subdesenvolvimento do país. Isso é como dizer que “o sol provoca pobreza porque em África faz calor”. É uma lógica tão fraca que quase colapsa sob o peso do próprio disparate.
O que nos atrasa não é o funge, é:
- A corrupção institucionalizada;
- O desprezo pela educação de qualidade;
- O medo da crítica livre;
- O culto da aparência em vez da competência.
Quem pensa que basta trocar o funge por salada para termos civilização, devia primeiro estudar história, economia e humildade. Não precisamos de menos funge. Precisamos de mais escolas, mais livros, mais justiça, mais ética, mais verdade. É impressionante como alguns supostos “pensadores” em Angola passaram a confundir opinião com conhecimento. A senhora que defendeu esta teoria apresenta-se como alguém que reflecte sobre a realidade, mas o que faz é precisamente o contrário: simplifica a realidade até ela se tornar caricatura.
Birmingham, 25 de Junho de 2025
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