Malundo Kudiqueba
Há fenómenos sociais que merecem ser analisados com mais profundidade. Um deles é este: os angolanos – incluindo os nossos políticos – amam mais o Real Madrid e o Barcelona do que os próprios espanhóis. É importante que a colonização psicológica continua a jogar no campeonato das nossas mentes. A colonização mais perigosa não é a ocupação da terra, mas sim a ocupação da nossa cabeça.
O facto de os políticos angolanos e o povo, no geral, amarem mais o Real Madrid e o Barcelona do que os próprios espanhóis não é apenas uma preferência desportiva — é um problema de identidade, de auto-estima e, sobretudo, de colonização mental.
Os espanhóis gostam dos seus clubes.
Os angolanos veneram os clubes espanhóis.
Os espanhóis não gritam por clubes angolanos. Os espanhóis não vestem camisolas do Petro de Luanda. Os espanhóis não seguem a vida dos nossos jogadores com a mesma obsessão.
Porquê? Porque eles sabem valorizar o que é deles. Eles sabem proteger a sua cultura.
Nós, não. Nós gritamos “Hala Madrid” como se fosse um hino nacional. Nós vibramos com golos de clubes que nem sabem que existimos.
Quando um povo ama mais os símbolos estrangeiros do que os seus, o que está colonizado não é o território — é o coração.
O futebol é apenas o espelho. O problema é muito maior. É político, é social, é psicológico.
Os nossos líderes copiam modelos europeus, defendem marcas estrangeiras, acreditam mais nos “especialistas” de fora do que nos talentos locais.
Importamos soluções e exportamos esperança.
Importamos modas e exportamos identidade.
A paixão dos angolanos pelos clubes espanhóis é uma extensão de um comportamento generalizado:
- Gostamos mais do produto europeu do que do produto nacional.
- Admiramos mais os líderes estrangeiros do que os nossos pensadores.
- Valorizamos mais as línguas coloniais do que as nossas línguas nacionais.
A colonização física pode ter terminado, mas a colonização emocional ainda está a vencer.
A terra foi libertada, mas a mente continua algemada.
O angolano comum vibra pelo Real Madrid. O político angolano veste Barcelona. Mas poucos sentem orgulho suficiente para defender com a mesma garra o seu bairro, a sua equipa local, o seu mercado, a sua história.
O espanhol assiste. O angolano ajoelha-se.
O espanhol torce. O angolano venera.
O espanhol gosta. O angolano idolatra.
O mais triste é que somos o único povo no mundo que demonstra este nível de fanatismo por clubes estrangeiros como se fossem propriedade nacional. Nenhum espanhol chora por um clube angolano. Nenhum francês veste a camisola do Interclube. Nenhum alemão grita por um golo do Kabuscorp.
Amar o que é nosso não é nacionalismo cego — é sobrevivência cultural.
Quem não defende o seu, será eternamente colonizado, mesmo em liberdade.
O corpo pode estar em Angola. Mas a alma… parece que já se mudou para Madrid ou Barcelona.
Quando a mente está colonizada, o colonizador nem precisa de voltar.
Já estamos a fazer o trabalho por ele.
Birmingham, 24 de Junho de 2024
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