Malundo Kudiqueba
Pedro Marques Lopes disse-o sem rodeios: as redes sociais já ditam, em muitos casos, a narrativa em Portugal. E o mais preocupante é que muitas das mentiras que nascem no mundo digital são transportadas, com naturalidade, para os estúdios televisivos e para as redações dos jornais.
Vivemos um tempo estranho: as redes sociais são acusadas de espalhar mentiras, mas os canais de comunicação tradicionais não ficam atrás. O problema já não é apenas saber se estamos a ser informados — o problema é saber quem nos está a desinformar mais.
Portugal não está sozinho neste fenómeno. Nos Estados Unidos, mais de metade da população já procura informação diretamente nas redes sociais, e o mesmo acontece, de forma acelerada, em quase todo o mundo ocidental. O novo campo de batalha é digital e, neste campo, a verdade é muitas vezes a primeira vítima.
Mas vamos mais fundo: será mesmo que as redes sociais são as grandes vilãs? Ou será que os meios de comunicação tradicionais estão apenas a perder o monopólio da mentira?
Durante décadas, foram as televisões e os jornais que construíram realidades, escolheram quem devia ser ouvido e decidiram o que era relevante. Agora que perderam o controlo da narrativa, apontam o dedo às redes sociais como se fossem elas o único problema. É cómodo. É conveniente. Mas é falso.
As redes sociais amplificam mentiras, é verdade. Mas não nos esqueçamos: muitas das grandes mentiras começaram dentro das redações. As redes sociais deram-lhes apenas asas para voar mais rápido.
Quando as televisões dão palco a comentadores sem rigor, quando os jornais publicam títulos sensacionalistas para aumentar audiência quem está realmente a desinformar? Quando um erro repetido mil vezes ganha estatuto de verdade nos grandes meios, quem é o responsável?
Portugal precisa de um debate sério sobre isto. Não podemos continuar a fingir que as redes sociais são o único lobo no pasto. O lobo também veste gravata. O lobo também apresenta telejornais. O lobo também assina editoriais.
O que está em jogo não é apenas a origem da notícia, é a integridade de quem a transmite. A pergunta é simples: quem ganha mais com a mentira? Quem tem mais a perder com a verdade?
As redes sociais democratizaram a informação, sim. Mas também democratizaram a mentira. O problema é que os meios tradicionais já mentiam quando ninguém lhes fazia concorrência.
O que Portugal precisa não é de um novo bode expiatório. O que Portugal precisa é de coragem para perguntar: quem, afinal, anda a desinformar o país?
Um abraço ao Pedro Marques Lopes.
Birmingham, 17 de Junho de 2025.
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