Malundo Kudiqueba
Sou responsável por aquilo que digo, mas não posso ser culpabilizado pelas interpretações que cada um escolhe fazer. Vivemos numa sociedade onde as pessoas ouvem menos para compreender e mais para responder. Em vez de procurarem o sentido, procuram o que podem transformar num título, num ataque ou numa ofensa. É o preço de viver no tempo em que a escuta foi substituída pela pressa de ter razão.
Uma sala de aula prova isto todos os dias: o professor explica, mas nem todos os alunos entendem da mesma forma. Uns captam a essência, outros agarram-se aos detalhes. O mesmo acontece no espaço público: um discurso pode ser claro, mas será sempre lido através dos filtros individuais de quem ouve.
Foi o que aconteceu com a entrevista do Presidente João Lourenço. O que para uns foi uma mensagem de Estado, para outros soou como arrogância. O que para alguns foi uma demonstração de liderança, para outros foi simplesmente um erro de comunicação. Não é o Presidente que muda — é o ouvido de quem escuta que transforma.
Ninguém tem o monopólio da interpretação. A palavra é livre, mas também é livre a forma como cada um a digere. Isso não pode ser colocado aos ombros de quem fala com responsabilidade.
Num país onde as palavras viajam mais depressa do que as ideias, é preciso lembrar: o facto de muitos interpretarem mal não transforma quem fala em culpado. Ser mal interpretado não é crime. Crime é não querer entender.
Num mar de opiniões, nem sempre o barulho é sinal de tempestade. Às vezes é só o som das muitas vozes a competir por atenção.
O poder da palavra é grande, mas a confusão que cada um faz com ela também é.
Ser responsável pelo que digo não me obriga a carregar o peso de tudo o que cada um escolhe ouvir.
No fim, a responsabilidade da interpretação também pertence a quem escuta. Quem ouve com atenção, entende. Quem ouve para atacar, distorce.
Birmingham, 16 de Junho de 2025.
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