Crónicas da Vida Portuguesa

Jornalista

Carla Alexandra M. Nunes

Quando o Jornalista fala Mais do que o Político Numa Entrevista

Não se sabe bem quando isto começou. Há quem diga que foi logo depois do 25 de Abril, quando finalmente se podia falar à vontade e ninguém queria perder a oportunidade de despejar tudo de uma só vez. O jornalista português hoje é assim: passa cinco minutos a montar a pergunta, parece que está a construir a Torre de Belém.

Primeiro vem o aquecimento:
— Boa tarde, senhor ministro, antes de mais, agradecer-lhe por estar aqui connosco, é sempre um prazer ouvi-lo, como sabe este tema é de enorme importância para o país, especialmente no contexto atual, que é, como sabemos, complexo, difícil, instável, enfim, como o próprio primeiro-ministro reconheceu recentemente, aliás, há quem diga que este tema tem implicações profundas, não só a nível nacional mas também internacional, e…

(Neste ponto o ministro já está a pensar “epá, que grande testamento”)

Depois vem a tese de mestrado que o jornalista preparou:
— Desde o início da legislatura que temos assistido a um conjunto de dinâmicas, decisões e, poderíamos dizer, hesitações, que nos levam a refletir sobre a eficácia das políticas públicas implementadas, nomeadamente no que toca à gestão dos recursos, aos impactos sociais e ao futuro das gerações vindouras, e nesse sentido, considerando o panorama europeu e as exigências orçamentais da Comissão Europeia…

(Aqui o ministro já está a dizer em silêncio.)
Finalmente, lá vem a pergunta:
— Senhor ministro, perante os factos apresentados, que explicação tem para o sucedido?

Cinco minutos de exposição para chegar a isto.

O político, com um leve levantar de ombros e expressão firme, responde:
— Estamos a acompanhar a situação com toda a responsabilidade. Neste momento, todas as medidas necessárias estão a ser avaliadas. Próxima pergunta.

O jornalista ainda tenta:
— Mas, senhor ministro, permita-me só aprofundar…
E lá vai mais cinco minutos.

No fundo, em Portugal, o jornalista não faz uma pergunta. Faz um discurso. E o político responde como quem quer fechar o assunto: com uma frase breve, protocolar e sem margem para mais.

Exemplo:
— Senhor ministro, perante os factos apresentados, que explicação tem para o sucedido?

O político, com semblante sério e voz controlada, responde:
— É uma questão complexa que está a ser analisada com rigor. O governo está a trabalhar para dar uma resposta adequada e responsável. Próxima pergunta.

Mas sejamos justos: o jornalista português não faz perguntas longas porque gosta de se ouvir (ou talvez goste só um bocadinho). Faz porque tem medo de que, se a pergunta for curta, o político também responda com algo curto… e aí não há notícia nenhuma. A verdade é esta: o jornalista dá o conteúdo todo e o político só assina por baixo.

Eu até acho que devia haver um campeonato:
— Prova de resistência verbal: quantos minutos o jornalista consegue falar sem respirar?
— Prova de fuga rápida: quantos segundos o político demora a fugir da pergunta?

E no fim, a medalha de ouro vai sempre para o político que consegue responder “Não tenho conhecimento disso” à pergunta mais complexa do século.

Ah, Portugal… país onde a pergunta é um testamento e a resposta é um bilhete de autocarro.

Não levem a mal. Isto não constitui uma crítica, mas sim uma constatação, uma observação — e aposto que não sou o único a pensar assim.”

Cont…

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