Por Carla Alexandra M. Nunes
Café, Críticas e Votos Perdidos
Em Portugal, há três lugares sagrados: o café da esquina, a casa da avó e a praia ao domingo. Mas nenhum destes supera o verdadeiro parlamento nacional: a mesa de café. É ali que se resolve o destino do país, se destrona governos e se julga o carácter de quem nunca se conheceu pessoalmente. Com um pastel de nata na mão e um bica na outra, o português transforma-se, sem esforço, em comentador político, especialista em economia e conselheiro presidencial — tudo num só gole.
Curiosamente, a paixão do português por falar mal dos políticos tem horários rigorosos. Normalmente começa logo pela manhã:
— “Isto está tudo perdido, são todos iguais, só querem encher os bolsos!”
Até o empregado de mesa já conhece os discursos e, enquanto vai servindo, já vai abanando a cabeça, como quem diz: “Mais um cliente a salvar o país com a boca.”
Mas o melhor ainda está para vir. Quando chega o dia das eleições, o português — esse crítico feroz, esse justiceiro das conversas de café — dirige-se à urna com a solenidade de quem vai ao casamento da prima. E o que faz? Vota exatamente naqueles que ontem apelidava de corruptos, mentirosos e inúteis. Porque, no fundo, “antes o diabo que já conhecemos do que um que venha fazer pior.”
O voto em Portugal é um ato de fé… e de esquecimento seletivo.
No dia seguinte? Recomeça tudo.
— “Eu já sabia, são todos iguais!”
E volta ao café, como quem volta a casa depois de uma longa viagem. É um ciclo perfeito, um casamento eterno entre indignação e amnésia.
A coerência nunca foi o prato forte. O que interessa é ter assunto para mais uma bica e um pastel de nata. O português é mestre em criticar de manhã e esquecer à tarde.
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