Malundo Kudiqueba
Os angolanos querem viver como os europeus mas não querem pensar como eles. Queremos o conforto europeu, mas aceitamos o desleixo africano. Enquanto formos cúmplices daquilo que criticamos, Angola nunca mudará. O país nunca será grande enquanto o cidadão for pequeno. Não é o lugar onde vivemos que define o nosso futuro. É a forma como pensamos onde estamos. É impossível ter vida de europeu com cabeça de colónia. Quem quer progresso, precisa de uma revolução na forma de pensar. Angola não é um grande país. Angola é apenas um país grande.
Queremos viver como os europeus? Excelente. Mas viver como eles é aceitar que o progresso vem com regras, com sacrifícios, com respeito pelo bem comum. É compreender que direitos e deveres andam de mãos dadas. É entender que quem ama o seu país não é aquele que grita, é aquele que constrói. Não há desenvolvimento com mentalidade de atalho. Não há Europa com cabeça de desenrasque. Quem foge da responsabilidade, foge do futuro.
O problema não é a falta de recursos, é a falta de consciência. O problema não é a falta de oportunidades, é a falta de compromisso. O problema não é a falta de líderes, é a falta de cidadãos ativos. Os nossos filhos merecem um país melhor, mas esse país começa por mudar a nossa maneira de pensar. Porque, no fim de tudo, o problema de Angola não é o passaporte — é a mentalidade.
A grande tragédia é esta: exigimos qualidade, mas não a praticamos. Queremos progresso, mas desprezamos disciplina. Sonhamos com sociedades justas, mas vivemos de esquemas, cunhas e jeitinhos. Falamos de mudança, mas resistimos ferozmente à mudança dentro de nós. O futuro que desejamos não cabe no pensamento que carregamos.
Queremos hospitais limpos, mas continuamos a sujar tudo à nossa volta. Queremos políticos honestos, mas idolatramos quem rouba bem. Queremos bons salários, mas faltamos ao trabalho como se fosse um favor que fazemos ao país. Pedimos transparência, mas vivemos de facilidades e de portas laterais.
O angolano quer viver como um europeu, mas com o comportamento de quem não acredita no próprio país.
O problema não está apenas nos políticos. Está em nós. Está no vendedor que adultera a balança, no polícia que pede ‘gasosa’, no cidadão que fura a fila, no funcionário que nunca chega a horas, no patrão que não paga, no estudante que cola nos exames. Está na mentalidade que aceita tudo, que normaliza o errado e que celebra o espertalhão.
Escrevo-vos com o coração aberto, mas com a cabeça fria. Porque há verdades que alguém tem de dizer, mesmo que custem a engolir. Nós, angolanos, queremos viver como os europeus — com estradas boas, hospitais de qualidade, salários dignos, casas organizadas, transportes que funcionam e governos que respeitam o povo. Mas continuamos a pensar como se o mundo ainda nos devesse alguma coisa.
Exigimos muito, mas entregamos pouco. Queremos tudo, mas damos quase nada. E depois perguntamos por que o país não avança.
Que estejamos finalmente dispostos a mudar por dentro, para depois exigir por fora. Angola não mudará porque um político disse. Angola mudará quando o cidadão decidir.
Peço desculpas por estar a dizer verdades. Mas é que eu gostaria tanto de ajudar o nosso país!
Espero não ter magoado sensibilidades com este desabafo.
Birmingham, 14 de junho de 2025.
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