Na era colonial, os que não conseguiam assimilar os valores dos invasores eram simplesmente excluídos da sociedade. Essa lógica persiste até aos dias de hoje. Aqueles que conviviam e trabalhavam com os colonizadores herdaram essa mesma lógica, reproduzindo-a contra os não assimilados, chamando-os de gentios ou, em bom guineense, djintius — os “não civilizados”.
Na realidade, a nossa forma de pensar provém, em grande medida, do processo colonial. Tudo o que vem do colonizador é valorizado, sobretudo pelos guineenses. A prova disso está nas escolhas de consumo: os guineenses — especialmente os políticos — compram todo o mobiliário dos seus escritórios e casas em França, nos Estados Unidos ou em Portugal: mesas, camas, armários, guarda-roupas, etc. Mesmo sabendo que esses móveis não são de madeira verdadeira — são, na verdade, feitos de derivados ou resíduos de madeira e com pouca durabilidade —, ainda assim compram-nos, apenas para ostentar poder económico ou exibir a suposta proximidade com os “patrões”.
Não fosse a dura domesticação imposta pelos europeus aos guineenses, em vez de desperdiçarem dinheiro a sustentar economias estrangeiras, poderiam investir esse capital no próprio país. Poderiam contratar os excelentes profissionais que temos na Guiné-Bissau, na área da carpintaria, para realizarem esses serviços, garantindo o seu sustento e o bem-estar das suas famílias. Ou então, criar condições para que os jovens aprendam e trabalhem nesse ofício.
Os europeus e os americanos não têm a madeira que nós temos, nem os profissionais brilhantes que possuímos na área da fabricação de móveis.
Aliás, devemos reconhecer: África é o único continente do mundo que foi profundamente colonizado. Nenhum outro continente sofreu colonização no mesmo grau. (Coitado de quem vem com o argumento de que “as Américas também foram colonizadas”, ou que “a Ásia também foi colonizada”!
Mas essa não é a questão principal. O essencial é que precisamos investir, de forma profunda e consciente, na desconstrução da colonização mental. Nós temos valor. Tudo o que existe na Guiné-Bissau tem valor — mais valor do que aquilo que nos tentam impor como superior. A democracia que tínhamos antes da colonização vale mais do que esta democracia neoliberal imposta de fora. As nossas línguas são mais ricas do que qualquer língua do mundo. A nossa cultura, além de ser uma das mais antigas da humanidade, era muito mais rica antes da alienação provocada pela cultura europeia.
As provas disso estão na forma como os acordos, antes, eram selados apenas com palavras. E essas palavras tinham significado. Tinham valor.
Infelizmente, tudo foi rotulado ao gosto do colonizador, que dividiu os guineenses em duas categorias: os civilizados e os gentios. Essa divisão foi herdada, perpetuada e reforçada até hoje. Quem consegue assimilar ou adquirir os valores europeus ou americanos é logo considerado “civilizado”.
Eis o retrato do mobiliário dos políticos e dos guineenses mascarados de assimilados: brilho por fora, lixo por dentro. Nada tem de madeira autêntica. Um guarda-roupa pode parecer eficaz, mas está longe de ser eficiente.
A COLONIZAÇÃO MENTAL É O VENENO MAIS LETAL DOS GUINEENSES.
Escritor: Marcelo Aratum
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