Por Malundo Kudiqueba
Mais de meio milhão de brasileiros vivem em Portugal. Trabalham, estudam, cuidam de idosos, constroem casas, servem às mesas e aquecem a economia num país envelhecido que precisa deles mais do que admite. No entanto, cinco mil brasileiros foram agora notificados para abandonar Portugal — e o número, embora possa parecer pequeno, revela algo muito maior e mais inquietante: a mudança brutal no tom, na política e no espírito do acolhimento.
“Portugal virou uma prisão a céu aberto.” A frase, dita por um imigrante desesperado, resume o sentimento de quem entrou legalmente, pagou impostos, esperou meses ou anos por documentos — e agora vê o chão fugir. Muitos vivem em modo de pânico, como declarou o presidente da associação Solidariedade Imigrante, denunciando o ambiente fértil que se criou para máfias, burlas e exploração da vulnerabilidade alheia.
A verdade é simples e dolorosa: Portugal quis os braços, mas agora rejeita os rostos. Beneficiou-se do esforço dos imigrantes quando precisou, mas está a começar a tratá-los como descartáveis.
O número de cinco mil notificações pode parecer estatisticamente “insignificante” — afinal, são menos de 1% da população brasileira no país. Mas quem olha apenas para os números ignora o que eles escondem: famílias a serem separadas, vidas congeladas no medo, crianças a crescer sob ameaça de deportação.
Portugal está a viver uma mudança de clima político. A retórica de “país de braços abertos” começa a ceder à pressão do populismo securitário. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) foi extinto, mas a nova Agência para a Imigração e Mobilidade está longe de ser mais eficiente ou humana. Pelo contrário, tem deixado milhares em limbo jurídico, sem documentos, sem direitos, sem futuro.
E a pergunta que poucos têm coragem de fazer é esta:
Quantos portugueses viveriam em Londres, Paris ou Luxemburgo, se fossem tratados da mesma forma que os brasileiros em Lisboa, Porto ou Braga?
O discurso político não pode continuar a alimentar a ideia de que imigrantes são o problema.
O verdadeiro problema é um sistema lento, injusto e por vezes cruel, que finge acolher, mas sabota pela burocracia e pela indiferença.
Portugal precisa de imigrantes. Mas mais do que isso: precisa de dignidade no tratamento de quem o escolheu como casa.
Não se pode construir uma sociedade justa expulsando quem constrói os alicerces.
Não se pode exigir integração e, ao mesmo tempo, cortar o cordão umbilical.
É hora de o governo português repensar não só a sua política migratória, mas a sua própria identidade:
Quer ser um país moderno e acolhedor — ou uma fortaleza melancólica cercada de muros invisíveis?
Enquanto isso, os cinco mil brasileiros continuam à espera. Alguns vão resistir, outros vão fugir, muitos vão desistir. E Portugal, ao perdê-los, não estará a tornar-se mais seguro. Estará apenas a tornar-se mais frio, mais injusto e mais hipócrita.
Este post já foi lido 609 vezes.
