Malundo Kudiqueba
A proposta da Fundação África-Europa para que António Costa e João Lourenço liderem o relançamento da parceria entre os dois continentes surge num momento decisivo. A relação Europa-África está enfraquecida, marcada por promessas quebradas, prioridades desviadas e uma crescente desconfiança do lado africano. Mas será que ainda vamos a tempo de resgatar esta ligação estratégica?
Holy Ranaivozanany, directora executiva adjunta da Fundação, foi clara: a relação sofreu um declínio evidente. As causas não são apenas políticas — são simbólicas. A pandemia de covid-19 revelou a fragilidade da solidariedade global. A guerra na Ucrânia e o consequente redireccionamento dos fundos europeus para o rearmamento deixaram muitos países africanos com a sensação de abandono. A sensação de que, quando chega a hora de partilhar sacrifícios, África é sempre a primeira a sair da sala.
Neste contexto, a nomeação de António Costa para a presidência do Conselho Europeu, aliada à liderança de João Lourenço na União Africana, abre uma janela de oportunidade única. Ambos são líderes oriundos de contextos lusófonos, com sensibilidade histórica e política para os dilemas das relações entre o Norte e o Sul globais. Ambos têm capital político e diplomático para agir. Mas a janela não ficará aberta por muito tempo.
O desafio está lançado: devolver conteúdo à retórica da parceria. Isso passa por mais do que palavras — exige projectos concretos, financiamentos estáveis e uma nova abordagem à cooperação internacional. O combate aos fluxos financeiros ilícitos, o investimento em infraestruturas energéticas e industriais em África, e uma nova abordagem ao comércio de minerais estratégicos são áreas de interesse mútuo, mas também zonas de conflito se mal geridas.
A proposta de uma nova cimeira UE-África em 2025, eventualmente em Angola, é mais do que simbólica — é necessária. Mas que não seja mais uma sessão de discursos. É imperativo que se apresente um plano realista, transparente e monitorável, com metas comuns e responsabilidades partilhadas.
A Europa não pode continuar a olhar para África apenas como um problema a resolver ou um mercado a explorar. E África não pode resignar-se a uma posição subalterna em nome de uma história comum que, tantas vezes, só serviu a um dos lados.
Se Costa e Lourenço conseguirem devolver ambição e honestidade a esta parceria, estarão a escrever uma nova página nas relações internacionais. Se falharem, não será apenas a UE ou a UA que perderão — será uma geração inteira, de dois continentes, que continuará à espera da tal parceria “entre iguais” que há décadas lhes é prometida.
A história julgará quem aproveitou – ou desperdiçou – esta última grande oportunidade.
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