Itália, Portugal e Reino Unido erguem novas muralhas contra imigrantes

Passaporte

Malundo Kudiqueba

Na Itália, o Parlamento aprovou um conjunto de regras que transformam o acesso à cidadania numa maratona quase impossível. Agora, apenas descendentes diretos (pais ou avós) de italianos poderão solicitar cidadania, com a condição adicional de que esse familiar tenha tido exclusivamente a cidadania italiana ou residido no país durante pelo menos dois anos antes do nascimento do descendente. Na prática, isto significa cortar o elo de muitos ítalo-descendentes nas Américas e África, tornando-os estrangeiros perpétuos aos olhos da “Pátria-mãe”.

No Reino Unido, o governo de Keir Starmer, que se pretendia mais progressista após o desgaste do Brexit e das políticas conservadoras, surpreende ao propor o aumento do tempo necessário para imigrantes acederem à residência permanente: de cinco para dez anos. Além disso, as novas exigências na contratação de estrangeiros ameaçam sectores inteiros da economia britânica, como a saúde e os cuidados sociais, onde a força de trabalho imigrante é imprescindível. A retórica trabalhista parece agora mais preocupada em competir com o populismo do que em oferecer justiça social.

Já em Portugal, o avanço do partido Chega, de orientação claramente anti-imigração, tem influenciado o debate público e a postura do próprio governo. Embora as medidas ainda não sejam tão draconianas como em Itália, o clima social e político está a mudar rapidamente. A presença crescente de imigrantes, especialmente de origem africana e brasileira, passou a ser explorada politicamente como uma ameaça à “identidade nacional”. O problema não está nas leis em si — mas no olhar com que se passa a ver o outro.

Estas mudanças não são casos isolados. São sintomas de um ressurgimento do nacionalismo europeu, disfarçado de prudência legislativa. A retórica é sempre a mesma: “precisamos controlar melhor quem entra”, “o sistema está sobrecarregado”, “a integração falhou”. Mas raramente se fala das contribuições dos imigrantes, da necessidade demográfica de muitos desses países, ou do próprio passado colonial que os torna devedores históricos de muitos dos que hoje tentam entrar pelas suas fronteiras.

Há, por trás dessas medidas, um recuo moral. Um abandono progressivo da ideia de cidadania como construção coletiva, da solidariedade internacional como princípio ético, e do reconhecimento da diversidade como riqueza. Em vez disso, adotam-se políticas punitivas, restritivas e, muitas vezes, marcadas por preconceitos mal disfarçados.

Se a Europa pretende continuar a ser uma referência global de civilização e direitos humanos, precisará de um debate mais honesto e inclusivo sobre imigração — que reconheça que nenhum país se constrói sozinho e que, em tempos de crise, é fácil culpar o estrangeiro. Difícil é encarar os próprios fantasmas.

A história já nos ensinou o que acontece quando se fecha a porta ao outro. A pergunta é: estaremos dispostos a aprender?

Birmingham, 01 de junho de 2025

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