Malundo Kudiqueba
Em Angola, a crítica tornou-se um acto seletivo. Há liberdade para atacar o regime, mas quem ousa questionar a oposição é logo acusado de estar “ao serviço do sistema”. É a nova ditadura: só podemos criticar o MPLA.
O país que durante décadas sufocou sob a propaganda do partido único, agora vê nascer um novo tipo de intolerância: a oposição santificada, imune à crítica, blindada por um moralismo hipócrita que se alimenta da frustração popular. Mas repito, com todas as letras: quem não aceita ser criticado, não merece governar.
Criticar o MPLA é fácil — o próprio povo já o faz nas ruas, nas filas do hospital, nos apagões de luz, nos bolsos vazios. Mas criticar a oposição virou pecado. Questionar a oposição é visto como heresia. E os que ousam pensar diferente são logo rotulados de vendidos, infiltrados, traidores.
Essa nova mentalidade não é democrática — é fanática. E o fanatismo, seja com bandeira vermelha ou preta, é o maior inimigo da liberdade. Quem só aceita críticas ao adversário, mas exige silêncio quando o dedo aponta para dentro, não quer democracia. Quer vingança.
Não estou aqui para proteger o poder nem para sabotar a esperança. Estou aqui para dizer o óbvio: mudar o nome no boletim de voto não serve de nada se a mentalidade continuar a mesma.
A alternância política só será uma vitória se trouxer consigo um novo espírito, uma nova cultura de responsabilização e escuta. Caso contrário, será apenas a rotação do privilégio, com novos donos para os mesmos velhos vícios.
É ridículo que alguém veja traição no simples acto de questionar quem se diz alternativa. Quem teme a crítica agora, tem vocação para ditador depois.
E já que falamos de ditaduras: a do MPLA é real, histórica, prolongada. Mas cuidado — a ditadura do silêncio imposto pela oposição também está a nascer, disfarçada de esperança. E quando a esperança se torna agressiva, sectária e intolerante, ela deixa de ser luz e passa a ser arma.
Eu não critico para destruir. Critico para que não se repita o ciclo doentio do poder absoluto.
Não tenho partido. Tenho princípios. E entre agradar os fanáticos e incomodar os livres, escolho sempre o lado da verdade — mesmo que ela doa. Porque no fim, só um povo livre de medo e de mitos pode construir uma democracia verdadeira.
E a verdadeira liberdade começa quando podemos criticar tanto o governo que falhou como a oposição que ainda nem chegou.
Birmingham, 31 de maio de 2025.
Este post já foi lido 729 vezes.
