Umaro Sissoco Embaló está a fazer política — e não é difícil percebê-lo. A sua recente digressão pelas regiões do interior da Guiné-Bissau, sob o pretexto de uma “Presidência Aberta”, tem levantado mais poeira do que aplausos. O Presidente, cujo mandato terminou constitucionalmente em fevereiro, parece decidido a ignorar os limites temporais da sua legitimidade para reforçar a sua presença política, recorrendo — ao que tudo indica — aos meios do Estado.
As imagens falam por si: multidões reunidas, comboios presidenciais com escolta militar reforçada, ministros ausentes dos gabinetes e escolas encerradas para garantir plateia e entusiasmo. Num país onde os recursos públicos são escassos e os serviços essenciais sofrem com a crónica desorganização, o que se está a passar não é uma simples visita presidencial. É uma operação política disfarçada de missão institucional.
O jurista e analista político Augusto Nansambé não hesita: “Estamos perante uma pré-campanha eleitoral”. Para ele, trata-se de uma tentativa deliberada de Sissoco testar o terreno político, medir apoios e sondar a viabilidade de uma recandidatura. E fá-lo, segundo os críticos, usando o aparelho de Estado, o que fere o princípio da igualdade de oportunidades entre candidatos e mina a transparência do processo democrático.
Há ainda um segundo nível de problema — mais estrutural. Ao usar o poder e os recursos do Estado para fins pessoais ou partidários, Sissoco reforça uma prática antiga na política guineense e africana: a fusão entre o líder e o Estado. O Presidente torna-se dono dos meios públicos, e quem se opõe a essa lógica é imediatamente rotulado de “inimigo da estabilidade” ou “subversivo”.
Não surpreende, portanto, que o próprio Sissoco tenha usado o palco de Catió para lançar recados: ameaçou quem ousar “subverter a ordem constitucional” e rejeitou o tribalismo, apresentando-se como o Presidente de todos os guineenses. Um discurso que tenta, simultaneamente, apagar as críticas à sua legitimidade e reposicionar-se como líder nacional num momento em que muitos o já tratam como “ex-Presidente”.
Mas um discurso unificador não apaga os factos. E os factos são teimosos: Umaro Sissoco Embaló está a actuar como candidato antes do tempo, usando os instrumentos do Estado que devia guardar com neutralidade. E fá-lo num contexto frágil, onde as instituições ainda lutam por credibilidade e os cidadãos esperam — há demasiado tempo — que a política seja feita com responsabilidade.
O povo guineense merece mais do que promessas em palanques e comitivas presidenciais que atrapalham o quotidiano. Merece um debate político sério, transparente, e um processo eleitoral em que todos concorram em pé de igualdade. A democracia não se constrói com discursos populistas, mas com respeito pelas regras. E uma dessas regras, talvez a mais básica, é que o Estado não é um instrumento de campanha.
Se Sissoco quer recandidatar-se, que o faça. Mas que o faça como cidadão em pé de igualdade com os demais, não como um Presidente que prolonga o seu poder com base na força e na aparência.
A Guiné-Bissau já pagou caro demais por lideranças que confundem o seu cargo com um trono. Chegou a hora de exigir clareza, responsabilidade e respeito pelo calendário constitucional.
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