André Ventura – “Nada Será Como Dantes em Portugal”

Andre ventura

Malundo Kudiqueba

Mas o que significa, na prática, esta promessa de mudança profunda?

Ventura apresenta-se como o homem que vai “limpar” Portugal da corrupção, da “imigração descontrolada” e de um sistema que, segundo ele, protege elites e castiga os cidadãos comuns. É o porta-voz de uma revolta difusa que se sente nos cafés, nas filas do centro de saúde e nos salários baixos que não chegam ao fim do mês. É essa frustração que o Chega tem sabido canalizar com eficácia.

No seu discurso, Ventura traça um Portugal novo, “livre da ideologia do politicamente correcto”, mais rígido na justiça, mais duro com os criminosos e, segundo ele, mais próximo das “pessoas reais”. Apresenta o país como refém de décadas de governação centrista, ora PS ora PSD, que “governam para os mesmos” e esquecem os “de baixo”.

A promessa é audaz: transformar Portugal num dos melhores países da Europa. Mas Ventura esquece-se, ou omite, que esse caminho não se faz apenas com retórica agressiva e frases de impacto. Um país não se constrói apenas com indignação — é preciso competência, visão, equilíbrio institucional e, acima de tudo, respeito pelos pilares democráticos.

E é aqui que surgem os receios. O crescimento do Chega, com o seu discurso por vezes inflamado e hostil à imprensa, à justiça e à diversidade cultural, levanta dúvidas sobre o modelo de país que Ventura quer realmente construir. A “mudança de regime” que propõe será, como diz, “tranquila e saudável”? Ou será um passo atrás em termos de liberdades, de pluralismo e de respeito pelos direitos das minorias?

Num país com memória fresca do autoritarismo, a ascensão de um partido que flerta com o populismo e usa frequentemente o medo como instrumento político deve ser olhada com seriedade. Ventura quer governar, e não esconde a ambição de, um dia, chegar a Primeiro-Ministro. Mas a questão não é apenas se ele pode chegar lá. A pergunta mais pertinente é: com que ideias, com que meios e com que consequências para a democracia portuguesa?

A verdade é que o Chega responde a um mal-estar real. Mas a resposta a esse mal-estar não pode ser a erosão da convivência democrática. Portugal precisa de mudança, sim — mas de uma mudança que una, não que divida. De uma mudança que respeite a Constituição, não que a dobre ao sabor de um líder carismático. Porque, como a história nos ensina, as mudanças de regime nem sempre são “tranquilas” nem “saudáveis” — sobretudo quando vêm embrulhadas em promessas absolutas e em aplausos fáceis.

“Nada será como dantes”, diz Ventura. Esperemos, sinceramente, que não se refira àquilo que Portugal foi antes do 25 de Abril.

Birmingham, 29 de maio de 2025.

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