Malundo Kudiqueba
Na política, como na vida, há alianças que nascem por amor… e outras por conveniência. A Frente Patriótica Unida (FPU) nunca foi uma história de amor. Foi um negócio bem calculado, um casamento político sem contrato assinado, feito na base de interesses comuns e ambições paralelas. Agora que o “divórcio” chegou, ninguém devia fingir surpresa. Na verdade, já havia traições silenciosas antes mesmo da lua-de-mel acabar.
A FPU foi um produto das circunstâncias, não da convicção. Uma aliança construída sem cláusulas, sem compromisso escrito, sem visão ideológica sólida. Apenas um objectivo: derrotar o MPLA. Era um pacto pontual, circunstancial, e profundamente pragmático.
Mas não sejamos ingénuos: todos ganharam com o arranjo.
A UNITA, principal locomotiva da frente, alcançou um feito histórico: 90 deputados. Nunca a oposição esteve tão próxima do poder em Angola. Pela primeira vez, Adalberto Costa Júnior passou a ser tratado como um verdadeiro estadista, e não apenas como um opositor.
Abel Chivukuvuku, por sua vez, reabilitou a sua imagem política e voltou a ser um nome com peso. Mais ainda: viu o seu partido, o PRA-JA Servir Angola, finalmente legalizado. Um prémio não declarado, mas notoriamente bem recebido.
E o Bloco Democrático? Foi protagonista, por associação.
Portanto, a FPU foi um palco onde todos os actores saíram ovacionados – mesmo que não tivessem a mesma peça em mente.
O que é que se esperava?
Que uma frente formada à pressa, em véspera de eleições, sem compromisso formal, resistisse às tempestades da ambição pós-eleitoral? Que os egos políticos, feridos ou inchados, não pedissem contas depois da festa?
Não houve traição. Houve apenas o fim de um entendimento que nasceu com data de validade.
Chivukuvuku quer agora seguir caminho próprio, talvez alimentado pela ideia de que pode ser mais do que um parceiro secundário. A UNITA mantém o seu capital político elevado, mas começa a perceber que alianças sem fundamento ideológico duram menos do que promessas eleitorais.
No fundo, a FPU foi útil. Cumpriu o seu papel histórico. Foi uma coligação feita para ganhar visibilidade, votos e legitimidade. Não para durar. E isso não é necessariamente mau. Na política, acordos pontuais também fazem parte do jogo democrático.
O problema começa quando tentamos transformar uma aliança táctica numa relação duradoura, sem os alicerces necessários: confiança, lealdade, e sobretudo uma agenda comum.
A FPU não morreu. Apenas cumpriu o seu ciclo. Agora, cada um que siga o seu caminho. Mas que ninguém se faça de inocente. Foi um casamento por interesse, e como tantos outros, acabou quando o interesse comum se dissolveu.
Birmingham, 28 de Maio de 2025.
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