Malundo Kudiqueba – Birmingham
Num mundo onde se prega a diversidade, mas se pratica a exclusão, Tete António, ministro das Relações Exteriores de Angola, foi impedido de discursar em português numa reunião oficial da União Europeia. Um episódio que envergonha a diplomacia europeia e expõe a forma como a língua portuguesa continua a ser tratada como uma linguagem de segunda categoria.
Os burocratas europeus não sabiam que Tete António era, de longe, o mais poliglota de todos naquela sala. Enquanto os outros se limitavam ao inglês ou ao francês — as línguas “aceitáveis” no clube das potências —, o ministro angolano carregava no seu currículo diplomático o domínio do inglês, francês, russo, kikongo, português e ainda compreende espanhol. Ele era, paradoxalmente, o mais europeu de todos — e talvez o mais africano também.
Não era apenas uma questão linguística. Era uma tentativa de apagar simbolicamente uma identidade. A língua portuguesa é falada em quatro continentes, por mais de 260 milhões de pessoas, e é língua oficial de países com histórias complexas, corajosas e profundamente humanas. Mas, aos olhos de certos círculos europeus, continua a ser tratada como um resto colonial, uma língua ornamental que não merece lugar nos grandes fóruns.
É aqui que entra o valor simbólico de Tete António: ele não é apenas um ministro, é uma bandeira. Representa uma Angola que se quer presente, respeitada e ouvida — na sua própria língua. Representa uma África que não pede licença para existir.
A CPLP tem agora a obrigação de deixar de ser um clube de discursos bonitos e tornar-se uma força diplomática real. Portugal deve liderar essa frente, e Angola deve pressionar. Ou damos à língua portuguesa o estatuto que merece, ou continuaremos a assistir a cenas como esta, onde um homem brilhante é silenciado apenas porque não falou na língua dos “donos da sala”.
Há momentos na diplomacia internacional que não revelam apenas protocolos e discursos — revelam, sobretudo, preconceitos enterrados sob o verniz da civilidade. Um desses momentos ocorreu recentemente, quando o ministro das Relações Exteriores de Angola, Tete António, foi impedido de discursar em português numa sessão da União Europeia. A razão? A habitual arrogância linguística europeia, que continua a ver a língua portuguesa como periférica, secundária, quase um estorvo colonial.
O que fizeram a Tete António não foi apenas uma descortesia. Foi uma tentativa de humilhação simbólica contra todos os falantes da língua portuguesa. Mas enganaram-se no alvo. Tete António respondeu com dignidade e todos foram silenciados ao ouvir Tete António expressar-se fluentemente em inglês e francês.
Obrigado, Tete António. Num mundo onde o respeito é medido em poder e não em poesia, foi preciso um angolano lembrar à Europa que a verdadeira grandeza está em ouvir todas as vozes — inclusive, e sobretudo, as que falam português.
Birmingham, 27 de Maio de 2025.
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