Amado Batista 74 anos e Calita Franciele 22 anos

52 anos de diferença

Por Malundo Kudiqueba

Será mesmo que no amor não há regras? Ou será que há limites morais e sociais que evitamos discutir com medo de parecer antiquados ou politicamente incorrectos?

O amor, na sua forma mais pura, talvez não conheça regras. Mas o mundo real não é feito apenas de sentimentos nobres. É feito de contextos, desigualdades, poder e expectativa. E é neste mundo concreto que um homem septuagenário casa com uma jovem de 22 anos — uma Miss, note-se — e o país inteiro tem de engolir a história como mais uma excentricidade do meio artístico.

Mas o que está realmente em jogo aqui não é apenas a liberdade de amar. É o símbolo. A mensagem que se passa quando homens muito mais velhos continuam a protagonizar romances com mulheres jovens, quase sempre belas, e quase nunca em posição de igualdade. Porque, sejamos francos: o contrário — mulheres idosas com homens na casa dos vinte — continua a ser visto como piada ou aberração. E porquê?

Porque o patriarcado ainda dita quem pode amar e quem pode ser amado.
Porque há um olhar de superioridade masculina que ainda associa juventude feminina a beleza, desejo e validação social.
Porque, apesar de todos os avanços, ainda vivemos num mundo onde um homem de 74 pode “escolher” uma parceira de 22… mas raramente acontece o inverso sem escândalo ou julgamento.

Amado Batista pode dizer que não sente a diferença de idade. Natural. Ele não precisa sentir. Ele detém o prestígio, o nome, o dinheiro e o palco. Mas a pergunta que nunca se faz é: e ela? Sente?
Sente quando entra num espaço e é vista como “a jovem esposa”?
Sente quando as pessoas sussurram “podia ser neta”?
Sente quando olha para o futuro e sabe que ele tem, biologicamente, menos tempo do que ela?

Não se trata aqui de atacar o casal. Desejo-lhes, sinceramente, amor e equilíbrio. Mas trata-se de reflectir sobre o que naturalizamos. O que aceitamos como “romântico” quando, talvez, seja apenas mais uma repetição da velha história onde o homem tem o tempo e a mulher, o corpo.

O amor não precisa de regras, é verdade. Mas precisa de consciência.
E nós, como sociedade, precisamos de parar de chamar tudo de “amor” só porque há um casal sorridente no Instagram.

Há amores genuínos com diferenças de idade? Claro que sim.
Mas também há relações disfarçadas de amor, que escondem estruturas de poder, vaidade, desejo e, por vezes, solidão disfarçada de afeto.

Não é o amor que está em causa. É o que escolhemos silenciar em nome dele.

Birmingham, 27 de Maio de 2025.

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