Marcelo Aratum
Durante a perseguição nazi, os judeus recebiam estatutos especiais de refugiados em vários países europeus. Recentemente, os ucranianos têm recebido também estatutos especiais em praticamente todos os países ocidentais. Agora, foram os brancos da África do Sul que obtiveram, nos Estados Unidos, um refúgio especial, motivado pela nova lei agrária implementada pelo Estado sul-africano. É importante frisar que nem o Estado da África do Sul nem os negros sul-africanos assassinaram sequer um branco. Ainda assim, ouviu-se o clamor internacional para “salvá-los”. Já imaginou se, de facto, houvesse assassinatos? O que aconteceria com a África do Sul?
Durante décadas, os negros sul-africanos foram saqueados e explorados pelos brancos, sem que isso comovesse os Estados Unidos ou a Europa. Pelo contrário, estas potências apoiaram, direta ou indiretamente, a pilhagem sistemática contra os negros sul-africanos. Hoje, basta o Estado sul-africano anunciar a intenção de transferir terras privadas para domínio público, e logo surgem ameaças de sanções e represálias internacionais.
Neste exacto momento, no Sudão, mais concretamente na região de Darfur, há uma perseguição brutal contra o povo local. Mais de 300.000 pessoas foram mortas e cerca de três milhões abandonaram as suas terras de origem. No entanto, quase nada se diz sobre este genocídio. Os noticiários concentram-se na Ucrânia e em Gaza. Da África, ninguém fala. Nem mesmo os próprios africanos falam da África. E eis que se aproxima o 25 de Maio, o chamado “Dia de África”. Pois bem: Dia de África, festas por todo o lado onde haja um africano. Coitados. A grande maioria nem sequer compreende o verdadeiro valor da comemoração. Celebram apenas por celebrar, e não pelo significado profundo da data.
Sempre digo: o que mais me revolta não é o comportamento dos imperialistas em relação aos africanos. O que me choca profundamente é a fé cega que muitos africanos depositam nos “pães” oferecidos pelos mesmos imperialistas: democracia, liberdade de expressão, direitos humanos, paz, justiça, céu, etc. Isso, sim, é o que me deixa verdadeiramente indignado. É difícil compreender como, até hoje, o africano não consegue ver a realidade, acreditando que o Ocidente é generoso ao ponto de lhes oferecer uma “cama de ouro” embalada num sorriso de dor.
Concluindo: o verdadeiro bem, a verdadeira paz, a verdadeira segurança nunca vêm de fora. São construídos internamente, por aqueles que verdadeiramente o desejam. A prova disso está na imposição da democracia neoliberal em África. Os africanos não escolheram esse modelo democrático; ele foi-lhes imposto.
Marcelo Aratum – Escritor
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