Por Malundo Kudiqueba
Trinta anos depois do fim do apartheid, a África do Sul continua mergulhada numa crise social que tem no crime violento a sua expressão mais visível e dolorosa. A promessa de liberdade, justiça e segurança para todos, feita nos dias dourados de Nelson Mandela, foi sendo diluída por décadas de corrupção, má governação e um sistema que continua a falhar os mais pobres. O governo de maioria negra, que herdou um país marcado por desigualdades extremas, não conseguiu, até agora, enfrentar de forma eficaz uma das maiores ameaças à sua democracia: o crime.
As estatísticas são estarrecedoras. Roubos, homicídios, estupros e assaltos tornaram-se parte do quotidiano de milhões de sul-africanos. Nas periferias urbanas, onde a juventude desespera por emprego e alimento, o crime é muitas vezes visto como uma saída de emergência. Não se trata apenas de criminalidade oportunista – é também uma criminalidade de sobrevivência, nascida da fome, do desemprego crónico, da falta de oportunidades e da desesperança.
Não podemos continuar a fingir que não sabemos as causas. A violência na África do Sul não surgiu do nada. Ela brota todos os dias nos bairros onde não há saneamento básico, onde as escolas funcionam sem professores, onde os hospitais não têm remédios, onde a polícia é corrupta ou ausente. A raiz do crime está na exclusão social e económica. E o governo tem plena consciência disso.
Por isso mesmo, é chegada a hora dos políticos sul-africanos assumirem a sua quota de responsabilidade. Não basta culpar o passado colonial, o apartheid ou as heranças do regime branco. O tempo da vitimização política passou. O povo precisa de soluções, não de desculpas. O Congresso Nacional Africano (ANC), que liderou a luta contra o regime segregacionista e governa desde 1994, perdeu-se no caminho. Entre escândalos de corrupção, promessas não cumpridas e uma classe dirigente mais preocupada com benefícios pessoais do que com o bem-estar coletivo, falharam o povo que um dia os elegeu com esperança.
Há quem diga que criticar um governo negro em África é dar munições aos nostálgicos do colonialismo. Mas a crítica justa e fundamentada é, na verdade, um ato de amor à democracia. Um governo de maioria negra tem a obrigação moral de governar melhor, não apenas por ter herdado um Estado racista, mas porque foi eleito para inverter esse legado. O que temos visto, infelizmente, é a reprodução de práticas que antes se condenavam: desigualdade, violência policial, falta de transparência e negligência com os mais vulneráveis.
A África do Sul precisa de uma revolução moral e ética no seio do seu sistema político. Precisa de líderes que não se contentem em citar Mandela nos discursos, mas que sigam os seus valores na prática. Precisa de uma polícia profissional, treinada e bem paga, que sirva o povo e não o tema. Precisa de um sistema judicial que funcione para todos, e não apenas para os ricos. Mas, acima de tudo, precisa de empregos, de pão na mesa, de esperança no futuro.
Enquanto a juventude negra continuar a crescer sem acesso a uma vida digna, o crime será a norma e não a exceção. Não se combate o crime apenas com mais prisões, mas com mais justiça social. O combate ao crime começa com a criação de oportunidades. E isso é responsabilidade de quem governa.
Manchester, 23 de Maio de 2025.
Malundo Kudiqueba
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