Malundo Kudiqueba – Manchester
A SIC Notícias está a fazer jornalismo à moda britânica. Quem acompanha canais como a Sky News ou a LBC reconhece de imediato o estilo: ritmo acelerado, perguntas incisivas, confrontos frontais com os protagonistas da política e da sociedade. Se continuarem assim, não tenho dúvidas — vão tornar-se líderes de audiência em Portugal. O curioso é que este estilo não é novo. Na política portuguesa, quem o explora há anos com mestria é André Ventura. O presidente do Chega fez da frontalidade, do confronto e da polémica o seu método de comunicação. E, goste-se ou não, funciona.
O que Ventura faz na política — agitar consciências, polarizar opiniões, centrar os holofotes sobre si — é, em certa medida, o que a SIC Notícias está agora a fazer no jornalismo. Claro que há diferenças substanciais entre os dois. A SIC mantém a moderação institucional que se espera de um canal de informação; Ventura, pelo contrário, alimenta-se do radicalismo e da tensão permanente. Mas no estilo — e sublinho, no estilo — as semelhanças são evidentes: ambos recusam o politicamente correto, desafiam as convenções e não têm medo de tocar nas feridas abertas da sociedade.
Não é uma crítica — muito pelo contrário. Gosto da SIC Notícias e reconheço-lhe o papel transformador que teve e tem no panorama mediático português. O canal ajudou a elevar o nível do debate, expôs contradições do poder, deu palco a temas antes ignorados. É um jornalismo que desperta, que provoca, que convida à reflexão.
Já Ventura, por sua vez, navega entre ziguezagues retóricos e propostas inconsistentes, sem uma linha clara de governação, mas com um talento inegável para ocupar espaço mediático. A diferença é que a SIC Notícias informa e esclarece, enquanto Ventura frequentemente confunde e agita.
Mas o paralelo continua válido: ambos perceberam que, num mundo saturado de informação, o estilo pode ser tão determinante quanto o conteúdo. E ambos souberam adaptar-se à nova realidade do consumo rápido e emocional da informação. O futuro do jornalismo — e da política — pode passar por aqui: impacto imediato, narrativa forte, presença constante. Cabe a cada um de nós distinguir quem o faz ao serviço da verdade… e quem o faz ao serviço de si próprio.
Malundo Kudiqueba
Manchester, 22 de Maio de 2027
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