Por Malundo Kudiqueba
A recente declaração do ministro de Estado para a Coordenação Económica de Angola, José de Lima Massano, sobre a manutenção das participações estatais na Galp e no BCP, revela muito mais do que uma simples decisão estratégica sobre activos financeiros. Ela ilustra uma mudança de atitude: um novo realismo económico, que procura equilibrar a racionalidade financeira com o imperativo da soberania económica num contexto global cada vez mais volátil.
Ao considerar a Galp e o BCP como “importantes activos externos”, Angola reconhece que o poder económico, hoje, não se joga apenas dentro das suas fronteiras. Joga-se nas participações cruzadas, nas alianças estratégicas e na presença institucional em mercados sólidos. Trata-se de uma visão menos imediatista e mais estruturante — algo raro em tempos de pressões financeiras e ajustamentos forçados.
A tentação de vender activos no exterior, sobretudo em momentos de necessidade interna, é grande. Mas resistir a essa tentação é um sinal de maturidade política. A Galp, como player no sector energético global, e o BCP, um dos maiores bancos portugueses com presença internacional, representam canais privilegiados de influência e, potencialmente, de dividendos financeiros e diplomáticos. Vender esses activos seria, em certa medida, amputar a capacidade de Angola de ser mais do que um exportador de matérias-primas.
Contudo, Massano não ficou por aí. Apontou também um caminho de reconstrução interna: a produção nacional como base para a segurança alimentar. Esta é, talvez, a declaração mais relevante de toda a entrevista. Porque enquanto se protege a presença externa, admite-se — com pragmatismo — que o futuro depende da recuperação da capacidade produtiva nacional. E aqui reside o verdadeiro desafio.
A economia angolana precisa urgentemente de produzir mais, melhor e de forma sustentável. Sem isso, qualquer discurso sobre crescimento, segurança ou independência económica será apenas retórica. A aposta na agricultura, na transformação industrial e nas cadeias curtas de produção é uma necessidade. E é aqui que o investimento português — invocado por Massano — pode desempenhar um papel decisivo. Não como acto de caridade, mas como parceria inteligente e mutuamente vantajosa.
É fundamental, no entanto, que o Governo angolano também faça a sua parte. Estabilidade jurídica, transparência nos processos de licitação, combate à corrupção e modernização das infraestruturas são condições indispensáveis para atrair investidores sérios. As intenções são boas, mas o terreno continua minado por vícios antigos e burocracias sufocantes.
A mensagem do ministro José de Lima Massano deve, por isso, ser vista como um sinal positivo, mas não suficiente. Manter activos externos é sensato. Fomentar a produção interna é urgente. Atrair investimento é necessário. Mas só um Estado verdadeiramente comprometido com a boa governação poderá transformar essas palavras em políticas eficazes.
Angola tem de parar de vender o futuro para sobreviver ao presente. E, neste ponto, o recado de Massano, se levado a sério, pode marcar uma viragem importante na forma como o país pensa a sua economia.
Este post já foi lido 406 vezes.
