O ministro das Relações Exteriores de Angola, Téte António, chegou a Bruxelas para participar na 3.ª Reunião Ministerial Conjunta entre a União Africana (UA) e a União Europeia (UE). O encontro, que reúne chefes da diplomacia dos dois blocos, tem lugar esta quarta-feira no coração político da Europa. A presença de Téte António nesta cimeira não é meramente protocolar. Representa uma oportunidade estratégica para Angola se afirmar como um interlocutor relevante no continente africano e, ao mesmo tempo, um parceiro fiável para a Europa num contexto global cada vez mais instável e competitivo. A guerra na Ucrânia, o reposicionamento geopolítico da China e o avanço silencioso da Rússia no continente africano colocam a Europa numa posição delicada — e, nesse contexto, os países africanos voltam a ganhar importância.
A União Africana e a União Europeia falam recorrentemente em “parceria estratégica”. No papel, o diálogo é promovido com base na cooperação, desenvolvimento sustentável, segurança e crescimento económico. Na prática, porém, as relações ainda se revelam profundamente assimétricas. A Europa fala de investimentos, mas continua a agir com desconfiança. A África fala de desenvolvimento, mas muitos líderes africanos continuam reféns de práticas internas que comprometem a transparência, os direitos humanos e a boa governação — temas que inevitavelmente surgem nestas reuniões.
Téte António tem sido uma figura discreta, mas constante na diplomacia angolana. Com um perfil técnico e um histórico ligado à ONU, demonstra conhecimento das dinâmicas multilaterais. No entanto, falta-lhe, por vezes, a ousadia política para assumir um papel mais proactivo na defesa dos interesses estratégicos de Angola e da África Austral. A diplomacia angolana ainda parece refém de um modelo antigo, pouco transparente e altamente centralizado no poder presidencial, o que limita a capacidade de adaptação e influência real nos grandes fóruns internacionais.
Muito, se souber jogar bem as suas cartas. Com a transição energética a dominar a agenda europeia, Angola — com as suas reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos — tem condições para negociar mais do que ajuda. Pode negociar parcerias. Mas para isso, precisa de apresentar projectos concretos, garantir um mínimo de estabilidade jurídica e económica e, sobretudo, mostrar que está disposta a jogar no tabuleiro global com seriedade.
Além disso, há que garantir que as questões de segurança — como a instabilidade na RDC e em algumas regiões do Sahel — não sejam tratadas apenas como problemas africanos, mas como ameaças à paz global, que exigem uma abordagem conjunta e coordenada.
Um dos maiores problemas da diplomacia angolana é o seu carácter fechado. As decisões são tomadas por um pequeno núcleo de poder, sem envolvimento da sociedade civil, da academia, dos empresários independentes e dos jovens. Enquanto isso, países como o Senegal ou o Quénia começam a construir diplomacias mais abertas e participativas, que mobilizam diferentes sectores nacionais na definição de estratégias externas.
Para que Angola tenha voz em Bruxelas, primeiro precisa de ouvir as vozes dentro de casa. A diplomacia do século XXI é cada vez mais multilateral também dentro dos próprios países.
A presença de Téte António em Bruxelas deve ser vista como uma oportunidade. Mas uma oportunidade só se transforma em conquista quando há visão, estratégia e coragem política. A Angola diplomática tem talento técnico e capital simbólico, mas ainda precisa de provar que pode ser mais do que espectadora num mundo em transformação.
A pergunta que fica é: Téte António foi a Bruxelas apenas para representar ou para influenciar? Veremos, nos próximos dias, se Angola continuará a fazer parte do coro ou se começará finalmente a cantar a solo.
Malundo Kudiqueba
Manchester, 20 de Maio de 2025
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