Malundo Kudiqueba
Fico feliz por ouvir finalmente uma voz experiente como a de Graça Campos a criticar publicamente o Correio da Kianda por divulgar notícias falsas sobre Adalberto da Costa Júnior. Não é apenas uma crítica — é um grito de sanidade num deserto onde a mentira se faz manchete e o silêncio cúmplice é regra. Quando uma jornalista sénior decide apontar o dedo aos seus, eu, que há muito tenho denunciado a decadência moral e profissional de grande parte da imprensa angolana, sinto-me, mais uma vez, vindicado.
Sim, tenho criticado o comportamento e a actuação dos jornalistas angolanos. E volto a dizê-lo: muitos deles não informam, manipulam; não investigam, especulam; não servem o povo, servem o poder. A comunicação social transformou-se numa máquina de propaganda, com alguns profissionais a trocarem a ética pelo salário, e a verdade por conveniência.
Mas ouvir Graça Campos falar — sem medo, sem rodeios, sem necessidade de agradar o regime — foi um sopro de esperança. Talvez ainda reste dignidade entre os escombros da nossa imprensa. Talvez nem todos tenham vendido a alma ao diabo com cartão de militante.
O segundo ponto que merece destaque é a actuação de David Boio no mesmo programa. Num momento em que o MPLA se via encurralado, com Adão de Almeida a tentar explicar o inexplicável, justificar o injustificável e defender o indefensável, foi Adalberto da Costa Júnior quem, com um gesto inesperado, salvou o Presidente da República da asfixia política, ao solicitar um encontro que mais pareceu um gesto de resgate institucional do que uma jogada de oposição.
David Boio esteve brilhante. Sem hesitações, questionou o timing daquele encontro como quem diz: “Será que o líder da UNITA foi ingénuo ou cúmplice?” A pergunta ficou no ar, mas o impacto foi directo. Num país onde as elites políticas vivem num jogo de sombras, Boio acendeu uma luz — e, por isso, dou-lhe 17 valores numa escala de 0 a 20. Merecidos.
Este episódio mostra que nem tudo está perdido. Quando jornalistas começam a questionar jornalistas, quando analistas políticos deixam de lado a bajulação e apontam contradições óbvias, quando se recusa participar da farsa nacional… aí há esperança.
Mas atenção: a democracia não sobrevive com jornalistas ajoelhados. Nem com partidos de oposição que confundem diálogo com rendição. O jornalismo que serve precisa de coragem. A política que serve precisa de coluna vertebral. E o povo que desperta precisa de voz.
Sejamos essa voz.
Birmingham, 17 de Maio de 2025.
Malundo Kudiqueba
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