Angola e Gabão: Um acordo cultural que pede mais que papel e protocolo

Angola e gabao

Numa altura em que o continente africano luta para se reencontrar consigo mesmo, depois de décadas de colonialismo e de globalização assimétrica, a cooperação cultural entre países africanos deveria ser encarada como um pilar central do desenvolvimento e não como um acto meramente simbólico para preencher agendas de visita de Estado.

Este acordo pode e deve ser mais do que a habitual troca de presentes e promessas. Ele pode significar a partilha de saberes ancestrais, a recuperação de memórias esquecidas, o intercâmbio de artistas, a criação de espaços comuns de formação cultural e artística, e até a produção de conteúdos que desafiem o domínio eurocêntrico dos nossos sistemas educativos.

O problema, como quase sempre, não está na assinatura dos documentos, mas na sua implementação. Quantos acordos culturais assinámos nos últimos 20 anos? E quantos deles produziram resultados palpáveis? Quantos jovens artistas angolanos conhecem os ritmos, os poetas, os pintores e os pensadores gaboneses — e vice-versa?

Se queremos mesmo uma África que coopera consigo mesma, é preciso sair da diplomacia do papel. O que se espera agora é um plano concreto, com financiamento transparente, metas claras e impacto medível. Trocar livros, abrir residências artísticas conjuntas, criar festivais regionais, promover línguas nacionais e investir em centros de formação são acções que poderiam transformar este acordo num verdadeiro motor de renascimento cultural.

João Lourenço, ao visitar o Gabão, tem a oportunidade de mostrar que a cultura não é um apêndice da política externa, mas a sua alma. Que este acordo não seja apenas uma fotografia de ocasião, mas uma semente de um novo pan-africanismo cultural, onde Angola e o Gabão se olham nos olhos e dizem: “Somos irmãos e temos histórias para partilhar.”

Porque sem cultura viva, crítica e emancipada, qualquer cooperação será sempre pobre, mesmo que assente sobre petróleo e diamantes.

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