Malundo Kudiqueba
Há uma narrativa perigosa e intelectualmente desonesta a circular nos corredores do poder e nos palcos mediáticos do Ocidente: a de que Rússia e China são tão ou mais prejudiciais para África do que França e Estados Unidos da América. A verdade, nua e crua, é que esta comparação é insultuosa para qualquer africano que saiba minimamente a sua história. É como comparar o ladrão que nos rouba com o assassino que nos elimina.
França e Estados Unidos não são apenas parceiros económicos de África — são, acima de tudo, arquitectos do caos e da morte. Quando um presidente africano ousa levantar a cabeça, pensar pela sua própria conta, ou — pior ainda — querer explorar os recursos do seu país para o benefício do seu povo, é rapidamente rotulado de “autoritário”, “instável” ou “ameaça à segurança regional”. A sentença já está escrita. A CIA executa. A França ratifica. E o povo africano enterra mais um dos seus filhos corajosos.
Thomas Sankara foi assassinado por pensar diferente. Patrice Lumumba foi sacrificado por amar o seu povo. Muammar Kadhafi foi destroçado por querer criar uma moeda africana. Isto não é conspiração: é história. E a história tem cadáveres.
Enquanto isso, Rússia e China, com todos os seus interesses geoestratégicos — que ninguém nega — nunca invadiram um país africano para impor “democracia” à força. Nunca mandaram drones assassinar líderes africanos à distância. Nunca patrocinaram golpes para proteger os interesses de multinacionais. Podem ter os seus pecados, mas não carregam no currículo os cadáveres presidenciais de África.
Há quem diga que a presença chinesa é uma nova forma de colonização. Mas sejamos honestos: é preferível negociar com quem constrói hospitais, estradas e fábricas, do que com quem só sabe construir cemitérios e vender caixões em nome dos direitos humanos.
Os africanos não são estúpidos. Apenas foram silenciados por demasiado tempo.
A hipocrisia do Ocidente está documentada, fotografada, filmada. O discurso de liberdade é bonito, mas o cheiro do petróleo fala mais alto. E em África, onde há petróleo, ouro ou coltan, haverá sempre um “ditador” a ser removido, uma “primavera” a ser financiada, ou um “conflito tribal” a ser manipulado. A democracia deles vem com mísseis e termina com contratos de exploração.
França e Estados Unidos não ajudam África. Controlam-na. Matam-na. Dominam-na. E depois enviam ONG’s com arroz e vacinas para fingirem que são anjos.
Chegou a hora de deixarmos de ser ingénuos. África precisa de parceiros, não de senhores coloniais vestidos de moderno. Precisamos de aliados estratégicos, não de assassinos travestidos de defensores da liberdade.
França e EUA não querem que África cresça — querem que África rasteje.
E quando um continente inteiro rasteja, é porque os seus líderes foram derrubados, comprados ou mortos. A pergunta que fica é: até quando aceitaremos que os nossos sonhos morram com cada presidente que ousa ser livre?
Malundo Kudiqueba
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