Por Marcelo Aratum
Lembro-me bem da minha loucura — e você, lembra-se da sua? Se não me falha a memória, tudo começou na noite de 24 de fevereiro de 2022. Foi quando a Rússia lançou aquilo que muitos chamam de um ataque ilegítimo à Ucrânia, mas que, do ponto de vista geopolítico de Moscovo, visava impedir a futura instalação de bases militares ocidentais e até de armas nucleares na sua própria fronteira.
No dia seguinte, o coro dos indignados organizou-se. Europeus, americanos e, claro, os subalternos do sistema — os chamados Zé-Ninguém, os parasitas geopolíticos — levantaram-se em uníssono: “Violação da soberania nacional! A Ucrânia é livre! Putin é um ditador! Pobres ucranianos!” Lágrimas de crocodilo escorriam pelos ecrãs de televisão. Mas, entre esses soluços ensaiados, o mais ridículo era o choro dos africanos. Alguns até pareciam dizer: “Os ucranianos estão a sofrer…” — como se os nossos próprios sofrimentos históricos tivessem sido apagados por magia. Só pode ser riso de dor — ver um africano a chorar pelos outros povos, esquecendo-se do seu.
Rapidamente, começou a repressão simbólica: livros de autores russos foram retirados das prateleiras, a imprensa russa foi silenciada, concertos cancelados, atletas hostilizados, sanções impostas. E enquanto isso, os refugiados ucranianos eram acolhidos com moradias, escolas, hospitais, dignidade. Um contraste gritante com o tratamento dado aos migrantes africanos, que enfrentam deportações, muros e discriminação institucional.
Neste teatro geopolítico, os figurantes mais entusiastas foram os subalternos, repetindo os mantras ocidentais dos “Direitos Humanos”, da “Democracia” e da “Soberania” — tudo, claro, à moda do patrão.
Mas um ano depois, quando começou o verdadeiro genocídio em Gaza — sim, um genocídio —, com crianças palestinianas esmagadas sob os escombros, hospitais bombardeados e bairros inteiros reduzidos a pó, a narrativa mudou. Os mesmos que choravam pela Ucrânia agora justificam o massacre como “autodefesa”. Já imaginou? Um Estado altamente armado como Israel alegar que está a defender-se de um povo que mal consegue alimentar-se?
Se a Rússia, a China, o Irão ou a Coreia do Norte fizessem o que Israel faz diariamente, o discurso seria implacável: “Nada justifica tamanha barbárie!” Mas, como se trata do aliado ocidental, o discurso muda. O Ocidente não governa apenas com tanques — governa com palavras. E o discurso, nesse jogo, é a arma mais letal.
Veja o caso da Síria. Bashar al-Assad, antes considerado um monstro pela imprensa ocidental e alvo de milhões em recompensas pela sua captura, hoje é recebido com sorrisos oficiais e apertos de mão. O que mudou? O interesse estratégico. A narrativa. A conveniência. A hipocrisia.
A mesma hipocrisia que agora rotula Ibrahim Traoré, líder de Burkina Faso, como ditador, golpista, inimigo da democracia. Mas quem decidiu que Burkina Faso não pode ser soberano como a Ucrânia? Quem nomeou os antigos colonizadores como árbitros da democracia alheia? O mesmo sistema que pilhou África durante séculos é agora quem se apresenta como guardião dos “direitos humanos” no continente.
É curioso: bombardeiam países, impõem sanções brutais, destroem economias — tudo, dizem, em nome da “restauração da democracia”. Será essa a democracia milagrosa que tanto prometem aos africanos?
Se em 500 anos de pilhagem, traições, golpes e colonialismo não aprendemos nada, quando aprenderemos? A resposta é dura, mas honesta: talvez nunca.
Marcelo Aratum é escritor Guineense.
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