João Lourenço tornou-se uma obsessão nacional para alguns

Joao lourenço

João Lourenço não é apenas o Presidente da República de Angola. João Lourenço é, para muitos, o culpado de tudo e o responsável por nada. Se chove, é culpa de João Lourenço. Se falta água, é João Lourenço. Se o primo não arranjou emprego, foi porque João Lourenço não quis. Esta fixação colectiva é, em si, um sinal claro de que algo não está bem — não só com o país, mas com o estado psicológico da sua população.

É curioso — ou talvez trágico — que muitos dos que mais criticam João Lourenço são precisamente aqueles que beneficiaram ou ainda beneficiam com o seu mandato. São os que comeram do prato do poder e agora cospem onde se fartaram de engolir. A crítica perdeu valor quando feita por quem lucrou com o que hoje denuncia. Em Angola, até os ratos gritam contra o queijo depois de se empanturrarem.

Desde 1975, o povo angolano tem andado de costas voltadas para a dignidade. A independência deu-nos uma bandeira, mas tirou-nos o pão. A guerra levou vidas, e a paz levou a esperança. Desde então, as condições de vida da maioria só têm piorado. E agora, com João Lourenço, o país parece caminhar a passo militar rumo ao abismo social. Hoje, o angolano sobrevive onde devia viver, rasteja onde devia caminhar.

João Lourenço não é Deus, mas em Angola trata-se o seu nome como se fosse omnipresente. João Lourenço aqui, João Lourenço ali, João Lourenço acolá. Mas será que João Lourenço tem mesmo tanto poder como se pensa? Ou será que nós, enquanto povo, apenas encontramos nele o bode expiatório perfeito para escondermos a nossa própria inércia?

As redes sociais tornaram-se templos digitais onde se reza todos os dias contra João Lourenço. Mas poucos se atrevem a criticar o sistema que o mantém no poder. Porque João Lourenço é só um rosto — por trás dele há um regime, uma cultura de impunidade, um país ainda colonizado pelo medo e pela dependência.

Enquanto continuarmos obcecados com João Lourenço, deixamos de olhar para nós mesmos. João Lourenço não pode ser o álibi para o fracasso colectivo de um país inteiro. O problema não é só João Lourenço. O problema é o que cada angolano está — ou não está — a fazer para mudar o rumo das coisas.

João Lourenço pode até sair, mas se a obsessão ficar, teremos apenas trocado o nome da obsessão. E isso não é política — é doença nacional.

Amsterdam, 05.05.2025.

Malundo Kudiqueba

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