Há uma doença estranha a espalhar-se em Angola. Não é malária nem cólera — chama-se João Lourenço. De Luanda a Lisboa, de táxis a tascas, toda a gente parece estar obcecada pelo Presidente João Lourenço. Diz “João Lourenço” em Angola e vê a sala pegar fogo. As pessoas mencionam o seu nome como se fosse uma oração — ou uma maldição. Alguns dizem-no 50 vezes por dia. Se a internet está lenta? Culpa do João. Se o carro não pega? João outra vez. Se o teu namorado te trai? De alguma forma, é culpa do João.
Isto já não é política — é patologia.
A obsessão não é oposição
A crítica é saudável numa democracia. Mas a obsessão é sinal de decadência mais profunda. Quando um povo deixa de acreditar nas instituições, nas ideias, nos outros — agarra-se à ilusão de que tirar um homem do poder resolverá tudo.
Os angolanos não estão apenas zangados com João Lourenço. Estão zangados com o espelho das suas expectativas desfeitas.
E aqui está o golpe: muitos dos críticos mais barulhentos são aqueles que se alimentaram à mesa presidencial. Ex-insiders. Beneficiários. Oportunistas que uma vez brindaram com o nome de João — agora afiam as facas nos grupos do WhatsApp.
A culpa é de graça. A responsabilidade custa caro.
Vamos ser claros: João Lourenço não é santo. Sob a sua vigilância, a corrupção não desapareceu — ela mudou de roupa. A pobreza não acabou — ela se diversificou. Mas culpar João por cada buraco na estrada e cada apagão é política preguiçosa.
Quando uma nação culpa um homem por tudo, está a desculpar todos os outros por não fazerem nada.
A economia está a sufocar. A juventude está a afogar-se no desemprego. Mas João Lourenço não inventou os problemas de Angola — ele herdou um país construído sobre areia e silêncio.
E agora? Está a ser crucificado por não transformar água em vinho.
A verdadeira doença é a amnésia.
De 1975 até hoje, Angola foi governada por um sistema que alimenta os poucos e engana os muitos. Presidentes vêm e vão, mas o verdadeiro regime — da ganância, do medo e do fatalismo — mantém-se intato.
O problema não é o João. É o João antes do João. E o João que virá a seguir.
Até Angola corrigir a sua cultura política, reconstruir as suas instituições e parar de transformar os presidentes em deuses ou demónios, o povo continuará a sangrar — e a culpar.
Angola não precisa de um bode expiatório. Precisa de um autoexame.
João Lourenço pode sair um dia. Mas a confusão ficará — a menos que o povo pare de adorar ou maldizer presidentes como feiticeiros.
Está na hora de parar de gritar nomes e começar a exigir resultados.
Amsterdam, 05.05. 2025.
Malundo Kudiqueba.
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