Úmaro é, mas não é… Botche é, mas não é… E como fica esse imaginário social?

Oposição da guine

Marcelo Aratum

É hora de dizer claramente: a ideia de que a democracia, como nos foi vendida, trará milagrosamente progresso, é uma ilusão colectiva. Uma anestesia. E a Guiné-Bissau tornou-se perita em consumir esse analgésico sem sequer questionar os efeitos colaterais.

Caro guineense, entendam uma coisa: a democracia que vocês tanto citam não passa de um dos piores modelos alguma vez exportados para manter os povos dependentes, distraídos e domesticados. Ela prepara o terreno para os demagogos — os que sabem discursar, emocionar e manipular. Os que sabem exatamente onde mexer para dominar a massa.

Então, afinal, o que é um bom político? Um bom político não é o mais inteligente, nem o mais estudado, nem aquele com propostas lindas nos programas eleitorais. Um bom político, neste modelo, é apenas aquele que domina o jogo e sabe como manter o povo entretido e desorientado.

A política é um jogo de máscaras — e o povo continua a aplaudir os actores errados.

Claro, este fenómeno não é exclusivo da Guiné-Bissau. A democracia falha onde o povo ainda não tem instrumentos para decifrar a encenação. E o comportamento político muda consoante o grau de maturidade cultural de cada sociedade. No passado europeu, os políticos invocavam Deus para se legitimarem. Hoje, invocam a palavra “democracia”. O truque é o mesmo — só mudou o vocabulário.

Os políticos, no geral, não fazem o que deve ser feito — fazem o que é preciso para se manterem no poder.

Na Guiné-Bissau do “pedjacê”, bastava gritar slogans de luta: “nós libertámos vocês”, para conquistar votos. Ninguém precisava apresentar um plano para o futuro. Bastava evocar o passado.

É hora de sair desse imaginário absurdo. Político não é instrumento de mudança. Quem muda um país são os intelectuais. Os que pensam, os que escrevem, os que desafiam o sistema, os que educam a mente do povo. Foi assim com o Iluminismo, foi assim com a Renascença, foi assim em todas as revoluções verdadeiramente transformadoras.

O mais triste é ver analfabetos políticos — os tais “apedeutas” — compararem Úmaro Sissoco Embaló e Botche Candé com políticos ocidentais. Dizem:

  • “Se Úmaro estivesse nos EUA, nunca seria presidente.”
  • “Se Botche estivesse em Portugal, jamais seria ministro.”

Essas comparações revelam uma ignorância profunda do funcionamento dos sistemas políticos e culturais. Cada político se constrói dentro do seu próprio contexto. Trump só é possível nos EUA. Macron só é possível em França. Marcelo só é possível em Portugal. Úmaro e Botche são o que são porque existem na Guiné-Bissau. Se Macron concorresse em Bissau, duvido que ganhasse sequer no seu próprio bairro.

A política não é uma ciência universal — é um teatro local.

E aos que se escondem atrás do teclado para disparar ódio, façam melhor: entrem no jogo, enfrentem-nos politicamente, criem alternativas. A Constituição não vos proíbe de fazer política — só a vossa covardia o faz.

E entre esses “engravatados” que desfilam por aí, de um lado para o outro, ora com o diabo, ora com Jesus, sem convicção nem rumo, prefiro mil vezes um Botche Candé com discurso próprio do que esses mendigos de ideias.

Olhem bem para eles. Escutem o que dizem desde 2015. É sempre o mesmo disco riscado:
“Ditadura… violação da Constituição… respeito pela democracia…”.
Nunca dizem nada sobre corrupção. Nunca tocam na educação, no desemprego, na saúde, na fuga dos jovens. Nunca falam dos milhões roubados e escondidos na Europa. Nunca denunciam os tratamentos médicos pagos fora do país com dinheiro público.

O discurso democrático virou desculpa para não fazer nada.

Pois é… pois é… pois é.

Si kanua kan kadja, na kil utro lado di Rio Djhon Landim, nô na tchiga lá pa kudje kakre ku karmuça.


Marcelo Aratum
Escritor e observador da realidade guineense

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