Há verdades que doem mais do que insultos. Manuel José disse: “não volto a trabalhar em Angola nem que fosse para ser Presidente” O treinador português não precisou de levantar a voz, nem de usar palavrões. Bastou uma frase seca, cirúrgica, para expor uma ferida aberta: a desilusão crescente com um sistema onde a incompetência e a corrupção ainda falam mais alto do que o mérito e a justiça.
Malundo Kudiqueba
Quando um homem recusa até a honra de ser Presidente de um país, não está a insultar: está a fazer um diagnóstico brutal.
Se Angola fosse hoje uma nação verdadeiramente livre, transparente e justa, quem recusaria servir a sua pátria? Só alguém cego não percebe que Manuel José falou mais por tristeza do que por ódio.
A reacção ofendida de alguns sectores do regime apenas confirma o que já se suspeitava: em Angola, a verdade é tratada como crime e a mentira como patriotismo.
O que Manuel José nos ofereceu foi um espelho — e, como dizia um velho ditado africano, “quem parte o espelho não cura a fealdade”.
Em vez de insultarem quem ousa dizer a verdade, os dirigentes angolanos deveriam perguntar-se: que país estamos a construir, se até amigos antigos já nos viram virar costas?
Porque a verdadeira traição não é a crítica dura. A verdadeira traição é continuar a prometer um novo Angola, enquanto se repete o velho filme de sempre.
Manuel José, com a franqueza de quem já não deve nada a ninguém, gritou o que muitos sussurram nos cafés, nas ruas e até nas embaixadas: “Angola merece mais. Muito mais.”
E essa, quer gostem ou não, foi a maior verdade dita nos últimos tempos.
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