Pobreza: O Crime Invisível do Capitalismo

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Por Malundo Kudiqueba

O capitalismo não pune o crime, pune o fracasso — e define fracasso como não ter dinheiro.

Em muitas partes do mundo, a pobreza já não é apenas um estado socioeconómico. É tratada como uma falha moral. Como se quem é pobre o fosse por preguiça, por burrice ou por castigo divino. O discurso é claro: “Se te esforçares, consegues.” Mentira. Num jogo onde uns nascem com todas as cartas e outros sem sequer o baralho, o mérito é apenas um mito conveniente.

A pobreza é criminalizada nas ruas, nos sistemas judiciais, nas escolas e nos hospitais. O pobre é o alvo fácil da polícia, o bode expiatório nos noticiários, o “suspeito habitual” em qualquer desordem. O pobre, na prática, é culpado até prova em contrário.

Num sistema que normaliza bilionários e despreza mendigos, a justiça já foi despejada.

Vejamos o dia-a-dia: quem não pode pagar renda é despejado. Quem não pode pagar uma fiança, apodrece na prisão. Quem não consegue pagar propinas, fica excluído. Quem não consegue pagar tratamento, morre. E depois chamam a isto “livre mercado”.

O capitalismo criou uma elite blindada, imune ao fracasso, protegida por leis, muros e investimentos. Do outro lado, milhões vivem com medo de uma despesa inesperada. O carro que avaria. O filho que adoece. A conta de luz que aumentou. A vida transformada num campo de batalha diário onde só sobrevive quem aguenta calado.

No capitalismo, a pobreza não é apenas difícil — é humilhante.

E os governos? Em vez de combaterem as causas estruturais da pobreza, criminalizam as suas consequências. Multam quem vende na rua. Proíbem quem dorme nos passeios. Prendem quem rouba pão, mas subsidiam quem lava dinheiro. Chamam de “ordem pública” aquilo que é, na verdade, perseguição de classe.

Ser pobre não deveria ser uma vergonha. A vergonha deveria ser de um sistema que permite que haja pobreza num planeta com tanto excesso. Que um bilionário possa gastar milhões numa ida ao espaço, enquanto crianças morrem por falta de água potável — isso sim, é um crime contra a humanidade.

O capitalismo não odeia o crime. Odeia a pobreza — porque ela estraga a paisagem dos ricos.

É urgente virar esta narrativa do avesso. A dignidade não pode depender do saldo bancário. A justiça não pode ser um luxo. A humanidade não pode ser uma mercadoria.

Porque ser pobre não é crime.
Mas no capitalismo, é quase.

Birmingham, 24 de março de 2025.

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