Governo com Ventura? Inviável por Falta de Pensamento Fiável

Luis montenegro

Por Malundo Kudiqueba

O Chega, de André Ventura, tem mostrado que é mestre na arte da indignação e repetente crónico da reflexão. É um partido que vive da raiva, mas tem pavor do raciocínio. Alimenta-se de likes, não de ideias. Grita muito, pensa pouco. E quando pensa, pensa mal.

Luís Montenegro, ao recusar fazer parte de um Governo com este partido, marca um limite necessário na política portuguesa: o limite entre a crítica construtiva e a gritaria tóxica, entre a alternativa democrática e a radicalização populista. Porque o Chega não quer governar. Quer incendiar. Ventura não quer consensos. Quer palco.

Fiabilidade de pensamento? Onde?

Quando um partido propõe castração química, trabalhos forçados e a criação de um Ministério da Família “tradicional”, está a lançar pólvora sobre o Estado de Direito. Quando um líder político sugere deportações em massa de cidadãos de origem africana ou árabe, está a brincar perigosamente com fantasmas do passado que já deviam estar bem enterrados. O Chega não é fiável porque a sua bússola ideológica gira ao sabor do ressentimento social e do preconceito institucionalizado.

O partido de Ventura vive de simplificações grotescas, slogans fáceis e inimigos inventados. É a versão política de um programa sensacionalista de televisão: barulho, escândalo e zero conteúdo. A sua visão de país é uma caricatura: Portugal reduzido a uma cerca onde só entra quem partilhar a mesma cor, religião ou sobrenome.

Montenegro não disse apenas “não”. Disse “basta”.

A recusa de Montenegro é, na verdade, uma afirmação de coragem num tempo em que muitos preferem o oportunismo à coerência. Com este gesto, o líder do PSD desenha uma linha vermelha no chão: a democracia portuguesa pode estar frágil, mas ainda sabe distinguir entre oposição legítima e populismo perigoso.

André Ventura não representa os esquecidos. Representa a exploração oportunista do seu desespero. O Chega não é um partido antisistema. É um partido anti-humanismo. E isso tem de ser dito sem rodeios.

Portugal precisa de reformas, sim. Precisa de justiça, segurança, igualdade e um novo contrato social. Mas não precisa de gritos que só servem para confundir os surdos. Não precisamos de um partido que quer parecer forte gritando mais alto, quando na verdade só revela a fraqueza de quem nunca teve um verdadeiro projecto de país.

Chega de ódio disfarçado de coragem. Chega de demagogia vendida como lucidez. Chega de Chega.

Birmingham, 24 de março de 2025.

Malundo Kudiqueba é sociólogo angolano, residente no Reino Unido, onde desenvolve o seu trabalho nas áreas sociais em Birmingham e na Grande Manchester.

Autor de artigos sobre política, sociedade e cultura, escreve com regularidade sobre os dilemas do mundo lusófono, as contradições dos regimes africanos e os desafios da integração no contexto europeu. A sua abordagem mistura análise sociológica com sensibilidade literária e uma dose saudável de provocação intelectual.

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