Não, eu não tenho fadiga contra os “políticos” guineenses em si. A minha fadiga é contra a robotização da massa popular e intelectual deste país. É contra essa passividade do povo, que aceita o inaceitável, e contra uma elite pensante que assiste calada às tragédias diárias da Guiné-Bissau.
Por Escritor Marcelo Aratum
Como é possível, diante de tantas situações sórdidas, não vermos os “políticos” a tomar posição? Onde estão? Por que se calam sempre nos momentos mais críticos?
Veja bem:
- Quando se deportam prisioneiros estrangeiros, não ouvimos uma única posição política digna. Não falo aqui de questões jurídicas, mas sim da ausência de uma posição política clara. Um silêncio que grita.
- O aumento da propina nas universidades passou como se nada fosse. Em pleno século XXI, em escolas públicas do nosso país, os pais e os próprios estudantes são obrigados a pagar para estudar. E os políticos? Todos em modo múmia.
- Quando um deputado guineense é preso em Portugal, não se ouve o eco de uma única voz política solidária ou crítica. Um silêncio vergonhoso.
- Diz-se que os governadores regionais receberam recentemente carros zero quilómetros. E os que já tinham? Vão virar ambulâncias? Onde está o debate? Onde está a transparência?
Sabe qual é a verdade? Hoje, os verdadeiros representantes políticos da Guiné-Bissau estão nas redes sociais. É aqui que os debates reais acontecem. É aqui que a indignação se expressa. Os chamados “políticos” do país tornaram-se parasitas do sistema — vivem do povo, mas o povo nada colhe deles. Só aparecem para falar de “direitos humanos” ou “violência” quando lhes dá jeito, quando há dividendos políticos a recolher.
Estes delinquentes não têm qualquer compromisso com o povo. Raramente falam do sofrimento real da população. Limitam-se a temas pontuais, manipulam causas nobres, e silenciam-se perante as questões estruturantes. Já os viste debater na Assembleia o abuso das operadoras de telecomunicação contra os consumidores? Não viste. E nem verás.
Criticar políticos na Guiné-Bissau é arriscado, eu sei. Os próprios “zé-ninguém”, vítimas do sistema, viram-se contra quem levanta a voz. Difamam-te, insultam-te, ignoram-te. Afinal, como diz o velho ditado: o cão nunca morde o dono — morde quem nada tem a ver com a sua prisão.
Pois bem: se me perguntarem qual é o melhor remédio para a classe política guineense de hoje, eu respondo: a coragem. A coragem de não calar. A coragem de expor. A coragem de resistir.
Porque não basta estarmos fartos. É preciso agir.
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