O maior inimigo do pobre angolano não é a guerra, não é a fome, não é o colonialismo. É o rico angolano. Sim, esse mesmo que ostenta relógios de ouro no pulso e alma de ferro no coração. O rico angolano não quer ver o pobre vencer. Não quer vê-lo estudar, viajar, empreender, ter casa, ter voz. Porque sabe que um pobre esclarecido é uma ameaça. Um pobre instruído é um revolucionário silencioso. Um pobre com ambição é um espelho que mostra ao rico o que ele se recusa a ver: que a verdadeira grandeza não vem da fortuna, mas da consciência.
Malundo Kudiqueba
É preciso dizer sem medo: o rico angolano sente prazer em ver o pobre angolano na miséria. Não é por maldade natural – é por conveniência estrutural. Um povo miserável é um povo domesticado. Fala pouco, exige menos, vota mal. E se reclamar, há sempre um cesto de arroz para calar a fome e o grito.
Nunca vi um rico angolano ajudar um pobre a tornar-se rico. Já vi muitos a financiar festas, a oferecer cestas básicas e a inaugurar campos de futebol em zonas carenciadas – mas isso não é ajudar, é anestesiar. É alimentar o estômago para manter o cérebro adormecido.
Quando um pobre quer crescer, o rico fecha portas. Se o pobre abre um negócio, o rico usa os seus contactos para sabotá-lo. Se o pobre se destaca, o rico tenta ridicularizá-lo. E se o pobre ousar sonhar alto, o rico lembra-lhe, com arrogância colonial: “Sabes de onde vens?” – como se a origem fosse sentença perpétua.
O rico angolano não tem medo da pobreza – tem medo do pobre a deixar de ser pobre. Porque a ascensão do pobre revela o fracasso moral da elite. Revela que o país não é pobre – é sequestrado. Sequestrado por uma minoria rica que quer manter a maioria pobre, calada, e eternamente grata pelas sobras do banquete.
O rico angolano não partilha conhecimento, não promove talento, não abre caminhos – constrói muros. E depois organiza fóruns sobre “empoderamento”, onde convida estrangeiros para falar de desenvolvimento, como se o angolano precisasse de tradução para entender a sua própria dor.
Mas há uma coisa que o rico angolano ainda não aprendeu: o pobre angolano pode estar descalço, mas não está cego. Está a despertar. Está a perceber que a verdadeira luta não é contra o “ocidente”, nem contra o “passado”, mas contra a elite que lhe roubou o futuro.
E quando o pobre angolano deixar de ter medo, o rico angolano deixará de ter poder.
Birmingham, 20 de março de 2025.
Este post já foi lido 1688 vezes.
