Por Marcelo Aratum.
Por que razão o africano — em especial o guineense — vive a culpar-se a si próprio e aos seus irmãos de continente pelo atraso de África, mas continua a aplaudir, de pé, os discursos malabaristas do Ocidente com as suas tramoias da democracia e dos direitos humanos? Por que é que nos preocupamos tanto em apontar o dedo ao outro africano, mas ignoramos as causas profundas dessa culpa que tanto nos consome? É preciso lembrar: nenhuma doença se cura sem que se conheça a sua origem.
Recentemente, ocorreram golpes de Estado em três países da África Ocidental, retirando do poder presidentes subservientes aos interesses franceses. O povo, em euforia, saiu às ruas para celebrar o fim da humilhação. Mas, num passe de mágica, os “defensores da democracia” — França, Inglaterra, EUA, Bélgica, Alemanha e os seus discípulos locais — uniram-se para condenar os golpes, ignorando o clamor das populações.
Segundo esses capitães do mato do século XXI, o poder só é legítimo quando é conquistado nas urnas. Mas atenção: as urnas só são válidas quando elegem marionetas do imperialismo. Caso contrário, os resultados são rejeitados, impõem-se sanções, sufoca-se o povo economicamente e o vencedor é rapidamente rotulado de ditador.
Foi assim com Laurent Gbagbo, da Costa do Marfim. Venceu as eleições, mas como não servia os interesses de Paris, a França recusou os resultados, mobilizou forças e retirou-o do poder — tudo isso com a bênção da “comunidade internacional”. Essa é a democracia que nos impõem? Essa é a culpa que o africano deve carregar?
Quem não chamou Gaddafi de ditador quando o Ocidente assim o quis? Hoje, a Líbia é uma nação destroçada, reduzida a escombros e a silêncio. E quem fala hoje da Líbia? Quem se responsabiliza pela destruição de um país que, antes da intervenção, tinha o melhor IDH da África?
África tem culpa, sim. Mas a culpa maior não é do colonizado — é do colonizador que nunca deixou de colonizar. Só trocou os métodos: já não usa chicotes, usa ONGs; já não envia soldados, envia “observadores”; já não saqueia com armas, saqueia com bancos.
África tem recursos, tem cultura, tem memória e tem inteligência. Não precisamos que ninguém nos diga como governar os nossos países. Precisamos, isso sim, de descolonizar a mente. Precisamos de parar de repetir o discurso do opressor com a boca do oprimido.
O africano que culpa só o africano pelo atraso de África está a repetir, inconscientemente, a lição que o colono lhe ensinou. E o faz com orgulho — como um escravo que se orgulha da corrente que carrega ao pescoço.
Como disse William Shakespeare:
“Aprende que não importa onde já chegaste, mas sim para onde estás a ir. Se não sabes para onde vais, qualquer caminho serve.”
África precisa urgentemente de saber para onde quer ir. E para isso, precisa de coragem para encarar as verdades que doem, mas libertam.
Abraços africanos de consciência desperta,
Marcelo Aratum
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