Há uma contradição gritante a percorrer os corredores da UNITA — e é tempo de dizê-lo sem rodeios: querem o legado de Jonas Savimbi, mas rejeitam os herdeiros. A actual liderança do partido da oposição gosta da herança ideológica quando ela rende votos, palmas e capital político, mas mostra desprezo pelos herdeiros de sangue, como se fossem um fardo indesejado da história.
A UNITA parece agora um partido órfão de memória, onde a idolatria ao líder actual transformou-se numa seita onde todos os que pensam por conta própria são silenciados ou queimados na fogueira virtual. E Ginga Savimbi, que poderia ser uma ponte entre gerações, está a ser trucidada, crucificada e insultada publicamente. Mas que partido é esse que persegue os seus próprios filhos?
Ginga Savimbi, filha do fundador da UNITA, tem sido alvo de insultos, ameaças e silenciamentos. Não pelos adversários políticos. Mas por activistas, membros e simpatizantes do próprio partido que o seu pai criou. Por quê? Porque ousou pensar por si mesma.
Os ataques que Ginga Savimbi tem sofrido nas redes sociais por parte de fanáticos ligados à liderança de Adalberto da Costa Júnior são a prova de que a liberdade de pensamento na oposição tem data de validade — e depende sempre de quem a exerce.
Adalberto foi apoiado por Ginga, convém não esquecer. Mas, como é habitual na política angolana, quem ajuda a subir é o primeiro a ser chutado quando o trono parece seguro.
É legítimo dizer que a UNITA não é propriedade privada da família Savimbi. Ninguém defende o retorno ao culto à personalidade.
Mas não se pode usar o nome de Savimbi como bandeira e ignorar os seus filhos como se fossem um produto descartável.
Se a UNITA não respeita os filhos de Savimbi, então que autoridade tem para exigir respeito à sua memória? Que coerência há em condenar a arrogância do MPLA enquanto se reproduz o mesmo desprezo por quem pensa diferente dentro do partido?
O partido que se diz herdeiro da esperança não pode tornar-se herdeiro da hipocrisia. Enquanto os herdeiros forem tratados como obstáculos e os bajuladores como heróis, a UNITA será apenas mais um projeto de poder, e não um verdadeiro projeto de país. E o povo, como sempre, continuará à espera de uma oposição que mereça esse nome.
Malundo Kudiqueba
Manchester, 15 de março de 2025.
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