“Já recebi ordens para eliminar certos indivíduos, mas não o fiz. Em alguns casos, eram só intrigas.” A frase é do general Nunda, dita com a tranquilidade de quem parece querer limpar a alma. Mas a alma da guerra não se lava com entrevistas. Lava-se com verdade. E a verdade, por vezes, chega tarde demais — ou na hora conveniente.O general “Nunda”, figura respeitada por muitos, deixou cair esta confissão como quem lança uma pedra num lago seco. Mas há perguntas que ficam a ecoar: será que o general Nunda teve, de facto, a coragem de dizer “não” a Jonas Savimbi?

Porque quem conheceu Savimbi sabe que dizer-lhe “não” era uma forma segura de assinar a própria sentença. E quem hoje diz que desobedeceu, sem consequências, ou tinha uma sorte divina — ou fala agora porque já não há riscos reais. A história tem ouvidos, e o povo tem memória.
E aqui faço questão de dizer: não vou duvidar do senhor general, de que nunca desobedeceu Savimbi, recusando-se a eliminar pessoas. Se assim foi, então tem o meu respeito. Mas o respeito não elimina as perguntas — apenas reforça a importância de as fazermos com seriedade.
Afinal, quem conheceu Jonas Savimbi sabe o que significava contrariá-lo. O líder da UNITA, com inteligência brutal e desconfiança endémica, não era homem de aceitar recusas. Muitos morreram por menos. A guerra era suja, os métodos implacáveis e a lealdade, cega.
Por isso, quando alguém diz hoje que desobedeceu, sem consequências, é legítimo perguntar: porquê só agora?
A revelação coincide com o momento em que o Estado recusou condecorar Savimbi. Coincidência? Talvez. Mas o “timing” levanta dúvidas que nem todas as fardas conseguem esconder.
É justo perguntar: por que razão essa revelação surge agora, precisamente quando se discute a não condecoração de Savimbi? Coincidência? Ou estratégia? Porque o timing, como em tudo na política e na guerra, raramente é inocente.
Num país onde os heróis são fabricados e os traidores são enterrados com medalhas, há silêncios que duram décadas. Mas quando começam a falar, devemos perguntar: falam por consciência ou por conveniência?
Alguns generais da era de Nunda poderão ter uma opinião contrária. Sabem de ordens cumpridas, de execuções feitas em nome da “disciplina”, de decisões que não foram discutidas — apenas obedecidas. Mas o código da lealdade, esse pacto de sangue e silêncio, impede muitos de falar.
E é aqui que reside o perigo: quando a verdade depende da coragem dos vivos e da ausência dos mortos. Savimbi já não está cá para se defender. E muitos que o serviram ainda temem as sombras que deixaram para trás. Entre a honra e a sobrevivência, muita gente escolheu viver — e viver em silêncio.
A frase do general Nunda, isolada, soa a redenção. Mas no contexto político actual, pode soar a manobra. Porque o passado, em Angola, nunca morre — apenas muda de uniforme.
Num país onde se morre por dizer a verdade e se é promovido por esconder mentiras, é preciso mais do que memórias selectivas para limpar a consciência.
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