ORLANDO CASTRO VERSUS “JORNALISTAS” ANGOLANOS

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Esta semana, o protagonista tem nome e peso: Orlando Castro. O jornalista que nunca teve medo de chamar corrupto ao corrupto. Orlando não lambe botas, nem troca princípios por convites de imprensa. Ao contrário da nova escola de “comunicadores” que confundem jornalismo com relações públicas do regime, ele ainda sabe distinguir a verdade do salário.

Em Angola, ser jornalista virou profissão de alto risco moral. Ou te vendes para sobreviver ou te calas para sempre. O jornalismo independente foi domesticado com ossos atirados da mesa do poder. O repórter virou recadeiro. A manchete virou despacho ministerial. A entrevista virou bajulação e a denúncia virou silêncio cúmplice.

Vivemos uma época em que o jornalista não informa – forma parte do esquema. Quando surge um escândalo, espera ordens. Quando há injustiça, finge que não viu. Mas se alguém critica o regime, aí sim: levantam-se todos em coro, assanhados, para defender o patrão como se fosse um pai ausente. O problema dos jornalistas angolanos não é falta de microfone. É falta de vergonha.

A imprensa angolana está cheia de vozes afinadas com o poder e vazias de coragem. Quando uma criança morre à espera de tratamento no hospital, ninguém diz nada. Quando a justiça é manipulada como teatro de marionetas, fazem de conta que é normal. Mas se um Orlando Castro escreve uma verdade dura num artigo, aparecem logo os ofendidos profissionais, os especialistas da narrativa e os donos da honra nacional – todos a uivar como cães sem osso.

A pergunta que não quer calar é: para que serve um jornalista que tem medo da verdade?

A resposta é simples: serve para enganar o povo, legitimar o roubo e fingir que Angola está a melhorar. Serve para apagar a dor dos marginalizados e iluminar as festas dos privilegiados. Serve para ser útil ao sistema e inútil ao cidadão.

Orlando Castro incomoda porque ainda acredita que o jornalismo deve incomodar. Que ser jornalista é dizer o que dói, não o que agrada. Que a função da imprensa não é agradar o governo, mas questioná-lo até ao osso. É por isso que tantos jornalistas assanhados o atacam – não por mentir, mas por dizer o que eles têm medo de pensar. Num país sério, Orlando Castro seria celebrado. Em Angola, é censurado.

E talvez esteja aí o nosso maior fracasso: confundimos liberdade de imprensa com liberdade de bajulação. Confundimos jornalismo com obediência. E confundimos coragem com ofensa. No fim das contas, não é o Orlando que está errado. É o país que está de cabeça para baixo, e os microfones apontados para os pés.

Malundo Kudiqueba

Birmingham, 09 de Março de 2025.

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5 Thoughts to “ ORLANDO CASTRO VERSUS “JORNALISTAS” ANGOLANOS”

  1. Anacleto Rato Anacleto Rato

    Excelente artigo e cheio de verdade. Infelizmente a maioria dos jornalistas venderam-se ao poder e esqueceram-se do verdadeiro sentido da sua missão: informar. Tão só. Tão simples!

    1. Obrigado pela parte que me toca. Desejo-lhe bom ano de 2026.

    2. Vamos continuar a trabalhar com objectivo de melhorar sempre.

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