Em Angola, o jornalismo tornou-se um espelho rachado — reflecte pouco, distorce muito e, pior, quebra-se sempre que toca na verdade. Os que se autoproclamam jornalistas esqueceram o juramento invisível que acompanha esta profissão: o compromisso com os factos, a denúncia da injustiça e a defesa do interesse público. Em vez disso, vestiram as camisolas partidárias, trocando a ética profissional por bajulação política.

Hoje, temos cronistas do poder, não jornalistas. Têm colunas nos jornais, mas não têm coluna vertebral. Quando deviam falar, calam-se; quando deviam calar-se, falam — e falam muito, mas só para defender os donos do poder no governo e na oposição.
Não há escassez de temas: corrupção, impunidade, perseguições políticas, pobreza extrema, manipulação eleitoral, violações dos direitos humanos… Mas os nossos “jornalistas” olham para o lado. Preferem escrever crónicas sobre inaugurações de mercados fantasmas ou bajular ministros incompetentes com diplomas comprados e biografias inventadas.
A imprensa angolana, salvo raríssimas excepções, está capturada. Não por medo, mas por conveniência. Não denunciam porque têm os bolsos cheios e a alma vazia. Tornaram-se cúmplices de um sistema que se alimenta da desinformação, da ignorância e da manipulação. Quando a imprensa deveria ser o quarto poder, em Angola tornou-se o quarto cúmplice.
O jornalismo não é só reportar factos — é incomodar, questionar, escavar até ao osso da verdade. Em Angola, a maioria dos jornalistas tornou-se especialista em superficialidades, fazendo de conta que informam, quando na verdade deformam.
Precisamos de uma nova geração de jornalistas que não tenham medo de dizer que o rei vai nu. Que estejam mais comprometidos com a justiça do que com o salário. Que saibam que o silêncio, quando se tem uma plataforma, é uma forma de traição. Porque quem tem voz e escolhe o silêncio diante da injustiça… não é neutro. É cúmplice.
Malundo Kudiqueba
Birmingham, 09 de Março de 2025.
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