Em Angola, a democracia é como um teatro caro com cadeiras vazias: o espectáculo existe, mas o final já está escrito. Os actores fingem discutir ideias, os figurantes gritam “mudança” e o público finge que acredita. Mas nos bastidores, os verdadeiros donos do guião já dividiram o bolo e garantiram os lugares da frente. Chamam-lhe “eleições livres”, mas o povo só é livre para escolher entre o ilusionista e o mágico. Os debates? Encenados. As promessas? Copiadas. Os resultados? Um déjà-vu com bandeiras novas e discursos velhos. A democracia angolana é como uma lotaria em que o bilhete vencedor foi impresso meses antes de ser vendido.

A oposição tenta gritar, mas o microfone tem sempre interferências. E quando finalmente chega aos ouvidos do povo, já é tarde. O sistema tem um plano B, C, D… e todos terminam com os mesmos nomes nos cargos e os mesmos discursos a repetir que “o povo escolheu”.
Escolheu o quê? A miséria menos dolorosa? O compadre mais simpático? Ou apenas o menos corrupto dos corruptos?
Enquanto isso, os verdadeiros acordos são feitos nos jantares de luxo, nos telefonemas cifrados, nas reuniões privadas em Lisboa ou Joanesburgo. O povo só vê a parte iluminada do palco. O poder real vive no escuro, bem protegido e longe das urnas.
E quando o povo se revolta? Calma, há sempre um novo discurso bonito, uma nova promessa, e mais um canal de TV a distrair com novelas mexicanas. Porque em Angola, a estabilidade é o nome bonito dado ao medo de mudar.
Mas a verdade é esta: sem povo atento, não há democracia — há só aparência. E os bastidores continuarão a mandar no palco enquanto a plateia bater palmas para não parecer que está a dormir.
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